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terça-feira, 28 de agosto de 2012

Martin Luther King: A agonia de um rei em depressão




Um dos maiores heróis americanos, Martin Luther King enfrentou a injustiça de uma nação. Mas, por trás do poderoso líder, havia um homem infiel e deprimido, que vivia à sombra do suicídio







Quando foi avisado de que tinha ganhado o prêmio Nobel da Paz, em 14 de outubro de 1964, Martin Luther King Jr. estava sob o efeito de tranqüilizantes, sozinho num quarto de hospital em Atlanta. Sua mulher, Coretta Scott King, ligara para dar a notícia. Logo depois, o quarto foi inva­dido por fotógrafos. Os jornais do dia se­­­­­guin­te diriam que King tinha sido inter­nado três dias antes, sofrendo de febre e exaustão. Uma meia verdade. Aos 35 anos, ele estava lá por causa de um problema que o acompanhava desde criança: a depressão.

A imagem de King que se eternizou é a do pastor, líder político e pacifista que lutou pela igualdade entre negros e brancos nos Estados Unidos. Um homem corajoso e otimista. Mas ele também era frágil e vulnerável. “Durante entrevistas que fiz com amigos de Martin Luther King, seu comportamento deprimido foi citado inúmeras vezes. Ele chegou a questionar em alguns momentos se sua vida valia a pena. Mas essas histórias de desespero não ganharam os jornais na época porque a imprensa não costumava noticiar dramas desse tipo como faz hoje”, diz o escritor americano Taylor Branch, que passou um quarto de século estudando a vida de King e, no ano passado, lançou At Canaan’s Edge (“À beira de Canaã”, inédito no Brasil), o último volume de uma trilogia sobre o líder.

Entre 1965 e 1968, nos anos finais de sua vida, King estava numa encruzilhada. Depois da vitória contra as leis racistas dos Estados Unidos, o líder se envolveu com causas como a luta contra a Guerra do Vietnã. Ao fazer isso, perdeu o apoio de vários aliados, fossem eles negros ou brancos. Enquanto isso, seus constantes casos extraconjugais eram usados pelo FBI (a polícia federal americana) para desestabilizar seu casamento e aprofundar sua depressão. O objetivo era tirar King da vida pública – ou mesmo fazê-lo dar cabo da própria vida. Em meados dos anos 60, o homem que enfrentara todo o racismo de uma nação estava encurralado, ameaçando sucumbir ao próprio sofrimento.




No caminho, uma Rosa

Nascido em 15 de janeiro de 1929, em Atlanta, no estado da Geórgia, King vivia com os pais, os irmãos e a avó materna, Jennie Williams. Quando o menino tinha 5 anos, ela sofreu um desmaio em casa. King não suportou a idéia de que Jennie pudesse ter morrido. Subiu as escadas correndo e se jogou por uma janela do segundo andar. Sua mãe, Alberta, o encontrou no quintal, estatelado no chão – o pequeno King só abriu os olhos depois que disseram que Jennie estava bem. A cena se repetiria sete anos depois, em maio de 1941. Ao saber que sua avó tinha sofrido um ataque cardíaco, voltou correndo para casa e encontrou a família chorando. King se jogou pela mesma janela, sobrevivendo de novo. Mas, dessa vez, a avó estava morta. O menino passou diversas noites em claro, chorando sem parar.

O lado depressivo do garoto contrastava com as boas condições de sua família. Martin Luther King pai, pastor da Igreja Batista, era o negro mais bem pago de Atlanta. Nascido Michael, ele trocara o nome para Martin Luther em 1935, homenageando o fundador do protestantismo. A mudança se estendeu ao filho, que acabaria herdando também a vocação religiosa. Aos 19 anos, Martin Luther King Jr. se formou em Sociologia no Morehouse College, a melhor escola para negros de Atlanta. Em 1954, depois de se doutorar em Teologia pela Universidade de Boston, King se tornou pastor batista em Montgomery, no Alabama.

Nos anos 50, King já estava envolvido na luta pelos direitos dos negros: era do comitê executivo da Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês). Nos estados americanos do Sul, como o Alabama, os negros eram cidadãos de segunda classe. 









Não podiam votar, eram proibidos de entrar em certos clubes, lojas e igrejas e, no transporte público, tinham que dar preferência aos brancos.


Em 1º de dezembro de 1955, toda essa discriminação foi posta em xeque por uma inofensiva costureira negra de 42 anos. Cansada e com dores nos pés depois de um dia de trabalho, Rosa ­Par­ks se recusou a ceder seu lugar no ônibus a um homem branco. Foi presa. Ao saber da notícia, King e outros líderes da NAACP transformaram o caso de Rosa no estopim da luta contra a desigualdade racial que ficaria conhecida como o Movimento pelos Direitos Civis. No dia seguinte, os negros de Montgomery iniciaram um boicote aos ônibus, sob a liderança do quase desconhecido pastor de 26 anos. Foram necessários 382 dias até que, em 21 de dezembro de 1956, a Suprema Corte dos Estados Unidos declarasse inconstitucional a segregação racial nos transportes públicos do país.
















Durante o boicote em Montgomery, viajando cerca de 25 dias por mês, King se tornara respeitado em todo o Sul dos Estados Unidos. Em contrapartida, tinha sido preso, criticado por membros de sua igreja e acordado inúmeras vezes de madrugada por telefonemas com ameaças. Diante disso, King não escondia a importância do apoio da esposa. Ele e a musicista Coretta haviam se conhecido em Boston, em 1952. O casamento rendeu quatro filhos ao casal, mas não era um modelo a ser seguido. Desde o primeiro momento, o pastor foi infiel. Quando estava longe de casa, King se encontrava com várias amantes.

Um sonho de liberdade

Apesar do fim da segregação no transporte público, o racismo continuava em várias instituições dos Estados Unidos. Após o boicote de Montgomery, Martin Luther King continuou trabalhando por reformas. Seguidor declarado de Mahatma Gandhi, ele promovia manifestações pacíficas como boicotes, greves e passeatas, pontuadas por seus poderosos discursos. Em 1957, ele ajudou a fundar a Conferência da Liderança Cristã Sulista (SCLC, na sigla em inglês), instituição que presidiu até a morte.

Diversas organizações iam surgindo para engrossar o Movimento pelos Direitos Civis. O problema é que elas muitas vezes acabavam entrando em conflito entre si. Uma das principais polêmicas era a doutrina de não-violência de King. No início dos anos 60, ela ainda soava bem, mas já não convencia os que estavam cansados de apanhar da polícia. O líder muçulmano Malcolm X, por exemplo, não hesitava em dizer que os negros deviam responder com violência à brutalidade das autoridades. King, entretanto, tinha boas razões para preferir o pacifismo: ele fazia com que a violência vista no noticiário fosse protagonizada pela polícia. Assim, o público americano tendia a simpatizar cada vez mais com a causa da SCLC – e a doar dinheiro para a instituição.

Em abril de 1963, King lançou uma campanha para acabar com a segregação nos banheiros e lanchonetes de Birmingham, no Alabama, então considerado o mais racista dos municípios americanos. 

Durante uma passeata na cidade, o pastor acabou preso. A cadeia não era novidade para King – ao todo, foram mais de 20 prisões –, mas, daquela vez, o presidente John Kennedy interveio diretamente por sua libertação. O prestígio do pastor estava no auge.





Em 28 de agosto, King liderou a Marcha sobre Washington, que reuniu mais de 200 mil pessoas na capital americana. Diante delas, disse estar feliz por fazer parte da “maior manifestação pela liberdade” da história dos Estados Unidos. Essas palavras foram o início de um dos mais pungentes discursos de todos os tempos, que ficaria conhecido como “Eu tenho um sonho”. Por 16 minutos, King hipnotizou a multidão enquanto dizia sonhar com o fim da discriminação racial, evocando desde a Bíblia até a Declaração de Independência americana. Foi ovacionado.

A eloqüência de King chamou a atenção de todo o país. Inclusive a do FBI. Em um documento secreto escrito após a Marcha, ele foi apontado pelo órgão como “um potencial messias, capaz de unificar e eletrificar o movimento nacionalista negro”. O relatório citava uma prova inequívoca do carisma de King: sua nomeação, pela revista Time, como o Homem do Ano de 1963 – honraria inédita para um negro. A conclusão do documento não deixava dúvidas: era preciso acabar de uma vez com a influência do pastor.

Vitória e angústia

O assassinato do presidente John Kennedy, em 22 de novembro de 1963, fez King ter um mau pressentimento sobre a morte. “É o que também vai acontecer comigo. Esta sociedade está doen­te”, disse ele a um amigo logo após o atentado, de acordo com Taylor Branch. Sem dúvida, King era um alvo potencial da ira alheia. Afinal, ele não era só um líder pacifista negro. Era o maior ativista de esquerda dos Estados Unidos.

Durante todo o ano de 1964, o excesso de trabalho, as ame­a­ças anônimas e as intrigas en­tre as organizações negras fizeram King sair de cena. Segundo Branch, o líder se tornou assíduo freqüentador do hospital St. Joseph – onde, inclusive, receberia a notícia do Nobel. “Ele pediu para ser internado lá pelo menos uma dezena de vezes, porque só assim podia ficar sozinho e descansar à base de pílulas para dormir”, afirma. Mas, em 2 de julho, King interrompeu o isolamento para viver outro mo­mento de glória em Washington: a cerimônia em que o presidente Lyndon Johnson assinou a Lei dos Direitos Civis, que tornou inconstitucional toda a legisl­a­­­ção segregacionista dos Estados Unidos.

A euforia pela conquista histórica não significou o fim do Movimento pelos Direitos Civis. Faltava ainda garantir que os negros do Sul pudessem votar sem restrições. Isso motivou King a promover mais uma grande marcha, partindo da cidade de Selma em direção a Montgomery, em março de 1965. A polícia tentou parar os manifestantes, que resistiram sem violência até conseguir che­gar ao destino final. Cinco meses depois, a Lei do Direito ao Voto foi aprova­da pelo Con­­gresso, a­ca­­­­­­­­­bando com os en­­traves legais para os negros nas eleições.

Dez anos depois do início do boicote aos ônibus, o Movimento pelos Direitos Civis havia conseguido, ao menos em termos de legislação, igualar negros e brancos nos Estados Unidos. A vitória poderia ter garantido a King dias de felicidade. Mas sua vida privada estava em frangalhos. No início de 1965, quando ele ainda estava preparando a marcha de Selma, Coretta tinha recebido um pacote com uma fita e uma carta anônima. As gravações traziam conversas de King com amigos e mulheres, em que a infidelidade do pastor ficava clara – Coretta estava acostumada a denúncias e amea­ças, mas jamais tinha recebido uma fi­ta comprometedora com a voz do marido. Já o texto da carta que acompanhava a gravação dizia que King era “uma vergonha para todos nós negros”. No fim, o autor sugeria que ele cometesse o suicídio: “Você se acabou. King, só resta uma coisa a ser feita. Você sabe o que é. Só existe uma saída. É melhor você pegá-la antes que seu lado nojento, anormal e fraudulento seja revelado para a nação”.

A carta e a gravação não tinham sido obra de um membro do movimento negro. Elas eram um golpe baixo da campanha do FBI contra King. Diálogos sobre adultério haviam sido obtidos com gravadores colocados na casa e no escritório de King, além de grampos em telefones de quartos de hotel. Os agentes federais sabiam que, por causa da depressão crônica, King seria capaz de se matar num momento de crise. A fita era uma tentativa de fazer com que isso acontecesse – essa tenebrosa estratégia foi posteriormente admitida por William C. Sullivan, ex-diretor-assistente do FBI, num depoimento dado ao Senado americano em 1975.

A explosiva fita acabou chegando às mãos de políticos, religiosos e jornalistas. A idéia de suicídio não foi levada adiante, mas a depressão do líder se agravou. “King reclamou que suas pílulas para dormir não estavam fazendo mais efeito”, escreveu Taylor Branch em At Canaan’s Edge. Em público, se limitou a fazer um mea-culpa nas entrelinhas de seus sermões na igreja, dizendo coisas como: “Eu nunca me coloquei como um grande modelo, mas tenho que fazer o melhor possível para redimir a mim mesmo e a América.”

Memória americana

Depois da aprovação da Lei do Direito ao Voto, a vida política de King precisava de uma nova causa. Ainda em 1965, ele decidiu usar o Movimento pelos Direitos Civis para se opor à Guerra do Vietnã, em que os Estados Unidos haviam acabado de entrar. King foi atacado por todos os lados, incluindo amigos e inimigos. Ninguém queria que ele se metesse com o conflito – que ainda não tinha se torna­do um evidente beco sem saída. King mu­­dou o discurso e apostou na chamada Campanha dos Pobres.

A luta contra a pobreza nem de longe contava com a simpatia que King arrebanhara para a questão racial. Ativistas próximos do líder achavam que o melhor seria se preocupar em fortalecer as conquistas dos negros no Sul do país. A falta de resultados em suas novas lutas aumentou o desalento de King. Duas semanas depois de completar 39 anos, pressionado por Coretta, ele finalmente resolveu admitir um de seus casos extraconjugais. Ainda assim, a esposa foi capaz de seguir ao lado dele.

Em 4 de abril de 1968, King estava em Memphis, no Tennessee, para apoiar uma greve de lixeiros. Sua liderança estava desgastada, assim como sua capacidade de sonhar com um país mais justo.

A desilusão dava o tom do sermão que ele começou a escrever naquela tarde, intitulado “Por que a América deve ir para o inferno”. O texto ficou inacabado. Às 18h01, enquanto conversava com amigos na sacada do Lorraine Motel, King levou um tiro no pescoço. Hospitalizado, morreu por volta das 19h. Cinco dias depois, o pastor foi enterrado em Atlanta, num funeral acompanhado por 300 mil pessoas. O suposto assassino foi capturado, mas o crime nunca foi esclarecido.


Após sua morte, Martin Luther King Jr. virou nome de ruas, escolas e bibliotecas e ganhou um feriado nacional nos Estados Unidos (a terceira segunda-feira do mês de janeiro). 

Em 2008, foi inaugurado seu memorial no National Mall – a esplanada em Washington, próxima à Casa Branca, onde foi feito o discurso “Eu tenho um sonho”. Além do líder negro, apenas os ex-presidentes Thomas Jefferson e Abraham Lincoln conquistaram honraria semelhante.

O King eternizado no panteão dos heróis americanos, entretanto, não é o mesmo que foi morto em Memphis.

Em tempos de invasão do Iraque, a história do King que protestou contra a guerra e a pobreza tem sido deixada de lado. 


O historiador americano David J. Garrow, autor de um premiado livro sobre o pastor – Bearing the Cross (“Carregando a cruz”, inédito no Brasil) –, não estranha esse esquecimento. “Os Estados Unidos preferiram a imagem romantizada de um homem doce e otimista. Principalmente porque o King dos anos finais ainda seria um estorvo até hoje, no governo de George W. Bush.

Os quase aliados
Quatro líderes e suas relações controversas com King

Ralph Abernathy
Amigo e braço direito de King, o reverendo sabia falar com os negros humildes – o pastor se dava melhor com os intelectuais. Mas Abernathy não era tão leal: quando King ganhou o Nobel, ele achou que merecia metade do dinheiro. Acabou faturando bastante ao lançar uma autobiografia cheia de fofocas sobre a vida sexual de King. Morreu em 1990.

John Kennedy
Graças ao apoio de King, o democrata conquistou os votos da comunidade negra e foi eleito presidente dos Estados Unidos em 1960, derrotando o rival Richard Nixon por uma diferença de menos de 1%. Em agradecimento, Kennedy apoiou o Movimento pelos Direitos Civis. Antes de ser assassinado, em 1963, teria convencido King a não fazer um discurso muito crítico ao governo na marcha de Washington.

Malcolm X
O objetivo de ambos era o mesmo: combater a discriminação. Mas, enquanto King optava pelo pacifismo, Malcom X defendia que os negros reagissem com violência. Essas diferenças impediam acordos entre os dois, que só se encontraram uma vez, em 1964. No ano seguinte, Malcolm X foi morto a tiros (King morreria da mesma forma, com a mesma idade: 39 anos).

Lyndon Johnson
Vice de Kennedy, assumiu a presidência em 1963 e a manteve nas eleições de 1964. Johnson negociou com King a elaboração das leis dos Direitos Civis e do Direito ao Voto, aprovadas em seu governo. Mas, quando o ativista se pronunciou contra a Guerra do Vietnã, o presidente parou de colaborar com ele – e chegou a chamá-lo de “pastor hipócrita”. Johnson deixou o cargo em 1969 e morreu em 1973

Crime ou conspiração?
O suposto assassino de King morreu dizendo que era inocente

Dias depois do assassinato de Martin Luther King, o traficante americano James Earl Ray foi apontado pelo FBI como principal suspeito. Capturado em junho de 1968, em Londres, Ray confessou o assassinato de King em 10 de março de 1969. Três dias depois, voltou atrás. Mas já era tarde. Foi condenado a 99 anos de prisão e passou a vida tentando provar sua inocência.
Aparentemente, Ray foi orientado a confessar o crime por seu advogado, Percy Foreman, numa estratégia para evitar um julgamento (e o risco de pegar pena de morte). Quando se arrependeu da confissão, Ray disse que era apenas uma peça sem importância numa enorme conspiração – a família de King ficou convencida de sua inocência. 
Ray morreu em 1998, aos 70 anos, sem saber dizer quem seriam os verdadeiros culpados. Nas últimas décadas, mais de dez livros com teorias sobre o assassinato foram lançados nos Estados Unidos. Há quem acredite que não apenas o FBI, mas também a CIA (a agência de inteligência americana), a polícia de Memphis e até o presidente Lyndon Johnson estavam envolvidos numa conspiração para matar King.
FONTE: Aventuras na História / Adriana Maximiliano

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Trotski: o poeta da luta armada


Ovelha negra entre os revolucionários russos, Trotski incomodou até o fim de seus dias e acabou assassinado - por ordem de Stálin - com uma picaretada na cabeça

Leon Trotski foi um ótimo exemplo de como se pode “endurecer sem perder a ternura”. Mentor da revolução ao lado de Lenin, ele organizou e liderou o Exército Vermelho, tomou o poder em nome do povo e ainda encontrou tempo para escrever alguns livros que mudaram o rumo do marxismo revolucionário. Perseguido pela ditadura stalinista, foi obrigado a abandonar a URSS. E acabou assassinado no México, a mando de Stálin, com uma pancada de picareta na cabeça. Ainda assim – e apesar de tudo –, Trotski conseguiu ser o mais pop entre todos os revolucionários russos. Era amigo de artistas, gostava de festas, cinema, arte, música... E enxergava uma certa poesia na vida.
“Natascha acabou de chegar pelo pátio até a janela e abriu-a completamente para que o ar possa entrar mais livremente em meu quarto. Posso ver a larga faixa de verde sob o muro. Sobre ele, o claro céu azul. E, por todos os lados, a luz solar. A vida é bela. Que as gerações futuras a limpem de todo o mal, de toda a opressão, de toda a violência, e possam gozá-la plenamente”, escreveu em seu testamento, pouco tempo antes de ser morto.
Disciplinador implacável
O nome verdadeiro de Trotski era Lev Davidovitch Bronstein. Filho de um próspero fazendeiro judeu, nasceu na Ucrânia, a 7 de novembro de 1879.

Mesmo vivendo em uma família abastada, o regime czarista – calcado nas desigualdades sociais – sempre o incomodou. Tanto que, ainda adolescente, já participava de grupos clandestinos de oposição ao regime. Em 1897, com apenas 18 anos, organizou um desses grupos, a Liga Operária do Sul da Rússia. Acabou sendo preso e condenado ao exílio na Sibéria – a primeira de uma série de condenações desse tipo. Naquele período, conheceu sua primeira mulher, Alexandra Sokolovskaia. Acredita-se que foi ela quem apresentou a Trotski as bases do marxismo. Com Alexandra, teve duas filhas: Nina e Zina. As meninas foram educadas segundo os mais rígidos princípios marxistas – uma tarefa que coube apenas à mãe na maior parte do tempo, já que o pai estava quase sempre sendo preso ou fugindo do país.
Foi justamente em um desses exílios, em uma passagem por Londres, que Trotski se aproximou de Lenin pela primeira vez. As diferenças entre os dois sempre foram muitas. Àquela altura, antes da revolução, o primeiro preferia alinhar-se com o mencheviques (moderados), enquanto o segundo já assumia a liderança dos bolcheviques (radicais). Mais adiante, no entanto, Trotski uniria-se à corrente política de Lenin e lideraria o Exército Vermelho até a vitória. De bonzinho, o camarada Trotski não tinha nada. Era um rígido disciplinador e apoiava o uso da pena de morte para atos de covardia e deserção. “Aviso que, se qualquer unidade militar recuar sem ordens para tal, o primeiro a ser fuzilado será o comissário político da unidade, e depois o comandante. É o que prometo solenemente diante de todo o Exército Vermelho”, declarou certa vez, em alto e bom som, durante uma manifestação pública.
Exilado também, em outras tantas oportunidades, Trotski foi desenvolvendo sua principal contribuição teórica para o movimento revolucionário russo: a idéia de revolução permanente. “Ele estava convencido de que, se a revolução não se espalhasse para a Europa ocidental, o proletariado russo dificilmente conseguiria se manter no poder por muito tempo”, afirma Michael Löwy, pesquisador do Centre National de Recherche Scientifique, em Paris. “No fim, foi o que acabou acontecendo.” Trotski ainda aproveitou o exílio para se casar com sua segunda mulher, Natascha Sedova, militante política que seria sua companheira pelo resto da vida. O casal teve dois filhos: Leon e Sergei – também assassinados, como o pai, por ordem de Stálin.
Réquiem mexicano
Até a morte de Lenin, em 1924, Trotski continuou fazendo parte do governo – sem, é claro, parar de alfinetar com suas idéias, vistas por muitos como de “direita”. Seu principal adversário era Stálin, que logo assumiu o poder. Com o rival no comando, Trotski foi obrigado a sair de cena rapidamente. Mas, mesmo do exílio, continuava aporrinhando o dirigente soviético com seus escritos e seus muitos seguidores. Um dos conceitos mais afiados por ele nesse período foi o de degeneração burocrática, desenvolvido em textos como 1923 – Novo Curso e 1935 – A Revolução Traída, em que defendia a necessidade urgente de uma revolução política na URSS.
Em 1936, Trotski e Natascha instalaram-se no México, com a ajuda do artista plástico mexicano Diego Rivera, marido da pintora Frida Kahlo. Em janeiro de 1937, mudaram-se para a casa dos pais de Frida, que havia sido transformada em uma fortaleza improvisada, repleta de guardas armados, vigias com metralhadoras e janelas emparedadas. O que Rivera não imaginava, contudo, era que o amigo Leon manteria um tórrido caso de amor com Frida. O fato estremeceu a amizade dos dois, obrigando Trotski e Natascha a encontrar outro lugar para morar.
O casal mudou-se, então, para outra fortaleza rigidamente vigiada, de onde o revolucionário continuava a criticar ferozmente o stalinismo. Até que, um dia, Trotski cometeu um erro fatal: deixou o mexicano Ramón Mercader, um suposto admirador, entrar em seu escritório para mostrar-lhe um artigo que havia escrito. Mercader, na verdade, era um agente de Stálin disfarçado. “Pousei o casaco impermeável na mesa, de forma a poder tirar a picareta que estava no bolso”, declarou o mexicano durante seu julgamento. “No momento em que Trotski começou a ler o artigo, tirei a picareta do casaco, segurei-a firme na mão e, de olhos fechados, dei-lhe um golpe terrível na cabeça.” Ferido, as últimas palavras do revolucionário aos seguranças teriam sido as seguintes: “Não o matem. Esse homem tem uma história para contar.” 

Saiba mais

Trotski, Isaac Deutscher, Civilização Brasileira, 2005
São três volumes (O Profeta Armado, O Profeta Desarmado e O Profeta Banido) que analisam em detalhes a vida particular e toda a obra política do líder revolucionário.


FONTE: AVENTURA DA HISTÓRIA / Mariana Sgarioni 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A Revolução dos Bichos - George Orwell


A história, desde a expulsão de Jones até a "transformação completa de Napoleão em "humano" durou aproximadamente 6 anos. Na Granja do Solar, situada perto da cidade de Willingdon (Inglaterra), viviam bichos, que como dono tinham o Sr. Jones. 

O Velho Major (porco) teve um sonho, sobre uma revolução em que os bichos seriam auto-suficientes, sendo todos iguais. Era o princípio do Animalismo. O Major morreu, mas mesmo assim os animais colocaram em prática a idéia do líder, fazendo a Revolução dos Bichos.

Depois da Revolução, a Granja passou a se chamar Granja dos Bichos, e quem a administrava era Bola-de-Neve (porco). Bola-de-Neve seguia os princípios do Animalismo, e mesmo sendo superior (em quesitos de inteligência e cultura) em relação aos outros animais, sempre se considerou igual a todos, não tendo privilégios devido à sua condição.

Bola-de-Neve tinha um assistente, Napoleão (porco), que na ânsia pelo poder, traiu o amigo, assumindo a administração da Granja. Napoleão mostrou-se competente e justo no começo, mas depois passou a desrespeitar os SETE MANDAMENTOS, os quais firmavam as idéias animalistas. 

Depois de aproximadamente 5 anos, Napoleão já ocupava a casa do Sr. Jones, bebia álcool, vestia as roupas do ex-dono, andava somente sobre duas pernas e convivia com seres humanos, enfim agia em benefício próprio, instalando um regime ditatorial, dominando e hostilizando os demais animais, considerados seres inferiores e sem direitos. Por essa época, já não era possível distinguir, quando reunidos à mesa, o porco tirano e os homens com quem se confraternizava. Napoleão conseguiu sair vitorioso graças à ajuda de Garganta, porco servil e obediente e que, através de bons argumentos, convencia os animais de que tudo o que acontecia era para o bem deles.

Os SETE MANDAMENTOS do Animalismo eram os seguintes:





1- Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo; 

2- Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo; 

3- Nenhum animal usará roupas; 

4- Nenhum animal dormirá em cama; 

5- Nenhum animal beberá álcool; 

6- Nenhum animal matará outro animal; 

7- Todos os animais são iguais. 

Napoleão, aos poucos, alterou todos os mandamentos. Foi Bola-de-Neve quem escreveu os SETE MANDAMENTOS.

A Revolução dos Bichos é um livro de extrema importância para entendermos o funcionamento de sociedades comandadas por diferentes tipos de governo, além de mostrar de forma genial a ambição do ser humano, o "sonho do poder".

O Senhor Jones era o dono da Granja e, como tal, explorava o trabalho animal em benefício próprio, para acumular capital. Em troca dos serviços prestados, ele pagava com a alimentação, que nem sempre era boa e suficiente. Temos aí o retrato de uma sociedade capitalista: quem mais trabalha é quem menos ganha.

A Revolução que se deu por idéia do "Major", tinha por princípio básico a igualdade; sendo assim, o Animalismo corresponde ao Socialismo, regime em que não existe propriedade privada e em que todos são iguais, e todos trabalham para o bem comum.

A princípio, houve um socialismo democrático, em que todos participavam de assembléias, dando idéias e sugestões, liderados por Bola-de-Neve, bem aceito pelos animais em geral. Napoleão representa o desejo da onipotência, do poder absoluto e, para conseguir seus objetivos, tudo passa a ser válido: mentiras, traições, mudanças de regras.

Tempos depois instaurava-se na Granja uma verdadeira Ditadura, o regime em que não há liberdade de expressão, direito a opiniões etc. Na sede pelo poder e pela riqueza, Napoleão entra em contato com os homens para com eles negociar, comprar, vender, enfim, acumular riquezas e tudo graças ao trabalho dos animais, verdadeiros empregados mal – remunerados, ajudando o "patrão" a ter regalias, bens materiais, capital.

A situação fica mais crítica do que quando Jones era o dono da Granja porque, mais do que nunca, os direitos humanos, ou seja, dos animais foram violados de forma cruel e tendo conseqüências gravíssimas como a morte de alguns, o desaparecimento de outros e muita tortura.

Com base nos fatos ocorridos podemos concluir que a história nos mostra os dois tipos de dominação existentes – a dominação pela sedução: Garganta persuadia os animais com seus argumentos convincentes e eles aceitavam pacificamente as mudanças efetuadas, e a dominação pela força bruta: quem se rebelasse contra as ordens era punido fisicamente, torturado por cães treinados e levados até à morte.

FONTE: WEBCOLA


terça-feira, 14 de agosto de 2012

Do beliscão ao beijo: uma história dos gestos de amor

Memórias de um Sargento de Milícias (1853), de Manuel Antônio de Almeida, é um dos livros mais famosos e engraçados da literatura brasileira. Nele são contadas as aventuras e malandragens do filho de um casal português que, nas primeiras décadas do século 19, veio morar no Rio de Janeiro. O início do livro mostra como os pais do herói se conheceram: “estando a Maria encostada à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído por junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo beliscão nas costas da mão esquerda. Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra: levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a mesma cena de pisadela e beliscão, com a diferença de serem desta vez um pouco mais fortes; e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos.”
Por incrível que pareça, outros textos mostram que essa descrição não é pura invenção literária. No Portugal do século 18 – e, muito provavelmente, também no Brasil –, o beliscão, como expressão de amor, era bastante difundido. Havia até uma tipologia de beliscões, que variavam de acordo com as circunstâncias. Entre os recém-conhecidos, era de bom-tom beliscar “de pincho”, aplicando levemente a torção sobre a pele. Para os mais íntimos valia o beliscão “de estorcegão”, também conhecido como “enérgico”. A moda era tão corrente que houve quem discutisse a necessidade de construir divisórias no interior das igrejas para impedir belisquinhos e beliscões durante a missa.
Os estudiosos desse gesto associam-no ao “namoro camponês”. Beliscões, pisadas de pé e mútuos estalos de dedos consistiam em rituais que simbolizavam a dura vida rural. No universo camponês das sociedades pré-industriais, o domicílio familiar não significava somente local de vida social, mas também de produção de quase todos os bens do cotidiano. Do alimento às roupas, tudo era produzido pelo casal. Daí os rituais que simbolicamente avaliavam a resistência e força dos noivos.
Ao contrário do que se poderia imaginar, o gesto em nada tinha de sadismo ou maldade – ou não era compreendido dessa forma. Muito menos representava uma atitude machista, pois os beliscões eram compartilhados por homens e mulheres. Talvez a forma mais fácil de entender o que foge à nossa compreensão seja através do contraste com a marca ritual do namoro de nossos dias: o beijo. Tal gesto também tem uma longa história. Durante a Idade Média beijar era uma forma de reconhecer poder. Os nobres, por meio do beijo na boca, selavam pactos com seus vassalos. Aos poucos, trovadores medievais foram se apropriando desse gesto para expressar o amor. E ele passou a significar que, na relação amorosa, a mulher era a suserana e o homem, o vassalo; do pacto senhorial também foi copiado o beijo na mão da amada.







Toda essa tradição irá mudar no século 19, período marcado pela industrialização e urbanização, com o surgimento de novas classes sociais. Os burgueses e proletários dos novos tempos adotaram o “beijo” como forma de expressão do amor. Por quê? Ora, não é de se estranhar que as novas classes dominantes copiassem as atitudes refinadas das elites anteriores. Aliás, isso podia até ser prática, já que, desde fins do Antigo Regime, era comum a união entre homens burgueses e mulheres nobres.

Também conspirava a favor do “beijo” o fato de a família, no século 19, ter deixado de ser um local de produção para se tornar apenas um espaço de convívio social. Aos poucos, os casais refinaram seus rituais amorosos. Isso, com certeza, não ocorreu de uma hora para outra. Nem se difundiu simultaneamente em todas as regiões e grupos sociais. Tornar tais comportamentos um objeto de estudo revela um caso limite do conhecimento do passado: mesmo o gesto mais íntimo de nosso cotidiano, mesmo aquilo que ingenuamente acreditamos pertencer à “natureza humana” sofreu mudanças ao longo do tempo. Descobrir e interpretar essas transformações é fazer da história uma aventura.
FONTE: Aventuras na História / Renato Venâncio

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Conheça a história das comunidades judaicas negras da África


Há quase 30 anos, uma operação do governo israelense deu início à retirada de judeus da Etiópia. Muitos africanos são judeus – e exames de DNA confirmam isso


Em 21 de novembro de 1984, uma operação massiva de transporte humano começava na Etiópia. Envolvendo 28 aviões, mercenários, a CIA e o governo do Sudão, Israel conduzia uma tentativa de retirar todos os judeus da Etiópia.

Os chamados beta israel são também conhecidos por falashas – termo do idioma etíope ghiz que significa estrangeiro. Pertencem a uma das comunidades de judeus negros espalhadas pelo continente africano. Há também os lembas em Zimbábue e na África do Sul, os igbos, na Nigéria, e os ybir ou yeber, na Somália, além de outras tribos em Moçambique, Camarões, Costa do Marfim, Gana e Quênia. Eles já eram conhecidos dos judeus europeus desde o século 19, quando missionários britânicos que viajavam pela Etiópia encontraram as primeiras tribos. Em 1947, foram oficialmente reconhecidos pelos rabinos-chefes de Israel, antes mesmo de o país ganhar sua independência. “Muitos nunca haviam saído de seus vilarejos e se espantaram ao ver um judeu branco”, diz Cecília Ben David, professora de cultura judaica da Casa de Cultura de Israel, em São Paulo.

A Etiópia foi um dos países onde a Guerra Fria foi travada com napalm. Desde 1974, estava em guerra civil, envolvendo o governo revolucionário contra dissidentes e separatistas da Eritreia. Na Operação Moisés (como ficou conhecida, em homenagem ao profeta bíblico), cerca de 8 mil judeus etíopes foram para Israel através do Sudão. No ano seguinte, a Operação Josué retirou mais mil – número pequeno se comparado à Operação Salomão, que levou mais de 14 mil emigrantes para a capital israelense, Tel-Aviv, em 1991, incluindo um Boeing 747 carregando 1 088 pessoas, mais que o dobro de sua capacidade. De 1980 a 1992, cerca de 45 mil judeus etíopes migraram para Israel, que em 2010 já contava com quase 120 mil residentes. Apenas 8 mil deles continua na Etiópia.

A origem dos judeus negros não está clara e se mistura com a mitologia bíblica. A família real etíope, deposta pelos revolucionários em 1974, dizia-se descendente de Makeda, a rainha de Sabá, com o rei Salomão, de Israel (que na Bíblia aparecem conduzindo relações meramente diplomáticas). Os nobres etíopes se converteram ao cristianismo no século 4 d.C., enquanto os beta israel se diziam remanescentes dessa relação entre realezas.

Se a origem de algumas tribos é mitológica, a de outras têm comprovação científica. É o caso dos lembas, que tiveram sua origem semita comprovada por DNA numa pesquisa de 2010, liderada por Tudor Parfitt, professor de estudos judaicos modernos da Universidade de Londres, na Inglaterra, e autor do livro As Tribos Perdidas de Israel – A História de um Mito. Segundo o pesquisador, são descendentes dos cohanim, uma família de sacerdotes judeus da tribo israelita de Levi. Pelos estudos, o ancestral comum de ambas as tribos viveu entre 2 600 e 3 100 anos atrás.

“Eles alegavam ser de uma das tribos perdidas de Israel e traziam um objeto sagrado, semelhante a uma arca, que seus sacerdotes guardavam zelosamente. Com a ajuda de uma equipe de Oxford, constatei que o objeto era de 1350”, afirmou Parfitt em entrevista publicada no site da SOAS (sigla em inglês para School of Oriental and African Studies ou Escola de Estudos Orientais e Africanos, da mesma universidade para a qual trabalha).

A arca se referia a um barco do clã buba, que também compartilha dos mesmos ancestrais dos cohanim. Outra pesquisa feita por Parfitt concluiu que grande parte das comunidades judaicas ao redor do mundo vêm do Levante, isto é, do atual território de Israel e vizinhanças. A única exceção são os etíopes, que não teriam raízes israelitas. “Sua forma de judaísmo foi uma das que se desenvolveram no país. Ou seja, os judeus não foram para a Etiópia em tempos antigos, mas o judaísmo sim”, disse.

Nos Estados Unidos há judeus negros que migraram na 2ª Guerra. Não há registros de tribos no Brasil, mas eles provavelmente foram trazidos para cá durante a escravidão. “Tantos cristãos-novos (judeus convertidos) de Portugal foram parar em alto mar após as perseguições da Inquisição que é provável que muitos tenham chegado aqui, assim como em Guiné, Congo e Angola, onde era menor o alcance inquisitorial”, diz Glasman.

Saiba mais
Livro - The Lost Tribes of Israel - The History of a Myth, Tudor Parfitt, 2003, Phoenix
FONTE: AVENTURAS DA HISTÓRIA / Lidiane Aires

Os fenícios e sua importância para o comércio


A partir do Líbano, os fenícios dominaram o comércio do Mediterrâneo por séculos. Em Cartago, descobriram a guerra. Fundaram um império, mas acabaram erradicados da História


Por mais de mil anos, os fenícios foram o shopping center ambulante da Antiguidade. Se algo pudesse ser vendido, eles vendiam: vinho, azeite, móveis, joias, ferramentas, armas, tecidos, peles, escravos e, por uma taxa especial, seus serviços como os melhores marinheiros do mundo. Entre 1200 a 730 a.C., sua rede conectava povos da Inglaterra até a Grécia e com ela também viajou sua grande invenção: o alfabeto, que deu origem ao grego, latim, hebraico e árabe.


Os fenícios originais não eram muito de guerra – preferiam fundar colônias com a permissão dos habitantes locais, sem avançar para o interior. Mas uma colônia fenícia mudou tudo: Cartago se tornou um verdadeiro império, e por pouco não pôs abaixo o futuro Império Romano. Como a criatura superou o criador e como ambos foram varridos da História é o que veremos a seguir.

Fenício? Que fenício?

Originários do que é atualmente o Líbano, a própria geografia empurrou os fenícios para o mar. A cadeia de montanhas que forma o monte Líbano limita a habitação humana à costa. Ao sul e ao norte, impérios bloqueavam o caminho. Partindo das cidadesestado de Tiro, Sidon e Biblos, as primeiras colônias foram em ilhas próximas, como Chipre e Malta. 

Aliás, não existia isso de “fenício” para os próprios fenícios. “A Fenícia não existiu como entidade política unificada até os romanos fazerem uma província com esse nome, milhares de anos depois”, afirma o historiador Richard Miles, da Universidade de Sidney, na Austrália. O nome vem do grego e era um apelido: a palavra phoinix quer dizer algo como “os roxos”, por causa de um dos seus principais produtos, os tecidos tingidos de roxo. “Eles provavelmente chamavam a si próprios de cananeus. Foram os gregos que os agruparam como fenícios”, diz Miles.

Canaã designava mais que apenas as terras dos ditos fenícios, era toda a região entre o sul da Síria e a Palestina, habitada também por outros povos, como os hebreus e os filisteus – cuja história, de fato, se confunde com a deles. “Até 1200 a.C., não havia diferença entre a história das cidades do litoral e do interior. Ou seja, nós temos uma civilização sírio-palestina, não fenícia. É só com a independência das cidades-estado (que já existiam) que começa a história fenícia propriamente dita”, afirmou o historiador italiano Sabatino Moscati (1922-1997) em The Phoenicians (sem tradução).

O que fez surgir o comércio fenício foi o chamado colapso da Idade do Bronze, que ocorreu por volta de 1200 a 1100 a.C.. Por motivos não muito claros, grandes civilizações como egípcios, gregos micênicos e hititas entraram em rápida decadência. O vácuo de impérios permitiu às cidadesestado uma independência inédita, que propiciou o surgimento de sua rede comercial. No começo, os fenícios ofereciam os produtos de sua própria região para os vizinhos: madeira de cedro-do-líbano, o mesmo material do qual seus barcos eram feitos, e tecidos pintados com extrato dos caramujos do gênero Murex, de um púrpura belo e intenso.

Conforme novos povos entravam em sua rede comercial, os fenícios os apresentavam a produtos de outros povos que conheciam. Assim eles passaram a vender vinho grego aos egípcios, e papiro egípcio aos gregos – a palavra “byblos” passou a significar “papiro” em grego por que eram os comerciantes de Biblos que os supriam com o material. Com o tempo, “biblos” passou a querer dizer também o conteúdo do papiro, isto é, o livro – daí as palavras biblioteca e Bíblia.

Dependendo de remos quando o vento não ajudava, os navios fenícios não tinham muita autonomia e faziam rotas próximas à costa, com paradas constantes. Assim, eles estabeleceram mais de 300 colônias, normalmente meras vilas costeiras de menos de mil habitantes. Essas vilas não eram possessões coloniais no sentido moderno – eram estabelecidas com o consentimento dos moradores da região e não tinham zona rural, dependendo dos locais para suprir-lhes alimentos. Era mais um free shop que colônia, num modelo que os portugueses repetiram 2 mil anos depois com suas feitorias asiáticas.

A grande exceção ao modelo fenício era Cartago, que tinha territórios no interior, e passou a ser o entreposto principal. Localizada na atual Tunísia, ficava no meio do caminho para as rotas que vinham da Espanha, e próxima da Sardenha e Sicília.

O preço da paz

A independência e prosperidade vinham a um custo – em espécie. O método fenício de sobrevivência era basicamente pagar pela paz. Sem um grande exército e sem qualquer aliança durável entre as cidades-estado, eles sobreviviam por causa de sua conveniência para os impérios vizinhos. Com a imensa fortuna de sua rede de comércio, aplacavam a ira dos conquistadores com tributos. Assim eles sobreviveram ao novo reino do Egito (1550-1069 a.C.) e o reino de Israel (1030-930 a.C.), que os tornaram vassalos – “protegidos” mediante pagamento.

A paz fenícia aguentou até o Império neo-assírio (934-604 a.C.), que aceitou seus acordos por alguns séculos. Na década de 730 a.C., no entanto, o rei Tiglate-Pileser 3º invadiu e conquistou Tiro, então a cidade fenícia mais próspera. Tiro não foi destruída, mas perdeu muito de sua autonomia. À conquista dos assírios, se seguiriam a dos persas sob Ciro 1º (539 a.C.) e a dos macedônios de Alexandre Magno (332 a.C.), que arrasaram a cidade. Nada restaria da Fenícia original, exceto sua maior criação: Cartago.

Fundada em 814 a.C., Cartago começou a receber migrantes do Oriente Médio conforme a situação piorava, e tornou-se independente em 650 a.C. Em 308 a.C., virou república. Cartago aprendeu uma lição com sua antiga metrópole: dinheiro não podia comprar a paz indefinidamente. O Império Cartaginense venceu uma série de guerras contra os gregos, entre 480 e 275 a.C. A última dessas guerras, chamada Guerra Pírrica (280-275 a.C.), acabaria tendo um custo inesperado. Ela tornaria seus aliados, os romanos, em inimigos mortais.

Cartago deve ser deletada

Os romanos saíram da guerra confiantes em sua capacidade militar, e menosprezando a dos cartaginenses, que tiveram várias derrotas. Sob o pretexto de uma aliança com um grupo de mercenários, os romanos declararam guerra a Cartago em 264 a.C., iniciando a 1ª Guerra Púnica. Roma venceria, ficaria com a Sicília, e cobraria tributos. Para pagar tais impostos, os cartaginenses expandiram seu domínio na Espanha pela via militar, tomando cidades dos celtas locais.

Um desses locais era Saguntum, cidade protegida por Roma. Assim começou a 2ª Guerra Púnica (218-201 a.C.). Sob o comando de Aníbal Barca, e com o apoio de aliados africanos, a guerra começou com um surpreendente ofensiva cartaginense em que os exércitos cruzaram os Alpes com elefantes de guerra e impuseram várias derrotas aos romanos. Mas a guerra se prolongou demais, e terminou em outra derrota de Cartago, que perdeu a Espanha e se tornou um estado cliente de Roma.

Os sentimentos de vingança pela quase derrota nunca foram esquecidos. A 3ª Guerra Púnica (149-146 a.C.) foi simplesmente o massacre de Cartago. A frase delenda est Cartago (Cartago deve ser destruída) vem dos discursos do senador Cato para convencer os romanos a “deletar” a cidade. E deletada ela foi. A população foi escravizada, a cidade, queimada, e a história dos fenícios, apagada.

Quase tudo o que sabemos sobre eles vem dos gregos e romanos, porque seus textos em papiro não resistiram a tantas depredações. Um fim tragicamente irônico para o povo que inventou o alfabeto.

Grandes ideias, grandes negócios

Para se tornarem os donos do Mediterrâneo, os fenícios fizeram uso de diversas inovações, a maioria delas relacionada à tecnologia naval. Os navios de guerra usados pelos romanos e gregos eram basicamente uma criação fenícia. Foi deles a ideia de construir um navio a partir de um esqueleto posto numa doca seca, a partir da quilha central, outra invenção sua. Seus navios foram os primeiros a ter leme. Também foram eles que tiveram a ideia de distribuir os remadores em duas linhas, criando a birreme, que depois ganharia mais uma linha, tornando-se a trirreme. Esses eram navios de guerra, os remadores extras davam velocidade em manobras de abalroagem, bater em outro navio para afundá-lo, que se tornou a principal forma de guerra naval na época. Os navios de transporte usavam principalmente velas. Mas a criação fenícia mais duradoura é o alfabeto, do qual deriva o nosso. Usar letras para passar sons, e não ideias, como nos hierogrifos, foi uma simplificação revolucionária.

Globalização antiga

A rede comercial dos fenícios abrangia desde a Inglaterra até a Grécia, país com o qual concorriam no comércio, mas que também era um de seus maiores clientes. O comércio era em grande parte escambo — trocavam os produtos locais pelo que estivesse carregando. Na Espanha, montaram toda uma rede de beneficiamento de metais, que se transformavam em joias e ferramentas em Tiro e Sidon.

Carthage Must Be Destroyed: The Rise and Fall of an Ancient Civilization, Richard Miles, 2010, Penguin Books
FONTE: Aventuras na História /  Fábio Marton 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

HIROSHIMA, NAGASAKI e a ROSA


As 8:15 da manhã de 6 de agosto de 1945, quando os moradores de Hiroshima estavam começando o dia, um avião americano B-29, chamado Enola Gay, soltou uma bomba atômica chamada "Little Boy", com 12,500 toneladas de TNT, que detonou 580 metros acima do Hospital Shima próximo ao centro da cidade.
Como resultado do ataque, calor e incêndios, a cidade de Hiroshima foi destruída e 90 mil pessoas morreram naquele dia. Três dias após destruir Hiroshima, outro avião B-29 atacou a cidade de Nagasaki com a terceira arma atômica mundial. O ataque resultou em mortes imediatas de 40 mil pessoas.
Até o final de 1945, 145 mil pessoas tinham morrido em Hiroshima e 75 mil em Nagasaki. Mais dezenas de milhares de pessoas sofreram ferimentos sérios. Mortes entre os sobreviventes continuaram nos próximos anos devido aos efeitos da radiação que também causou o nascimento de bebês com má formação.
Na concepção de muitos, se não da maioria dos cidadãos americanos, as bombas atômicas salvaram a vida de talvez 1 milhão de soldados americanos e a destruição de Hiroshima e Nagasaki é vista como um pequeno preço a ser pago por salvar tantas vidas e levar a guerra terrível ao final. Esta visão dá a impressão que o ataque nestas cidades com armas atômicas foi útil, rendeu frutos e é uma ocasião a ser celebrada.
Más a necessidade de se jogar as bombas para terminar a guerra tem sido amplamente discutido pelos historiadores. Muitos intelectuais, incluindo Lifton e Michell, mostram que o Japão estava com intenções de se render quando as bombas foram jogadas, que a estratégia militar americana havia calculado muito menos baixas de uma invasão do Japão e finalmente que havia outras maneiras de se terminar a guerra sem utilizar bombas atômicas nas duas cidades japonesas.
Entre os críticos do uso das armas nucleares em Hiroshima e Nagasaki estão líderes militares americanos. Em uma entrevista após guerra o General Dwight Eisenhower, que mais tarde viria a ser presidente dos EUA, disse a um jornalista: " ... os japoneses estavam prontos para se renderem e não era necessário atacá-los com aquela coisa terrível."
O Almirante William D. Leahy, chefe do grupo de trabalho de Truman, escreveu:
" Na minha opinião o uso desta arma bárbara em Hiroshima e Nagasaki não ajudou em nada na nossa guerra contra o Japão. Os japoneses já estavam vencidos prontos a se renderem ... Sinto que sendo os primeiros a usá-la, nós adotamos o mesmo código de ética dos bárbaros na Idade Média (...) Guerras não podem ser ganhas destruindo mulheres e crianças ..."
Não há reconhecimento suficiente no mundo e nem nos EUA de que as vítimas das bombas eram na maioria civis, que aqueles mais próximos do epicentro das explosões foram incenerados enquanto os mais distantes receberam a radiação, que muitos tiveram mortes dolorosas e que mesmo hoje, mais de cinco décadas após o ataque com bombas nucleares, os sobreviventes ainda sofrem os efeitos da radiação.
As bombas de Hiroshima e Nagasaki fazem parte do passado. Mas elas ensinem umas das lições mais importantes da humanidade: existe a possibilidade de sermos exterminados como espécie, não simplesmente mortes individuais, mas o fim dos seres humanos.
Cada dia em que as armas nucleares continuem a existir na Terra é um dia que se festeja uma catástrofe como aquelas de Hiroshima e Nagasaki em 6 e 9 de agosto de 1945.
Mais de 30 mil armas nucleares existem no mundo hoje. Tudo isto apesar de que os maiores e mais antigos portadores de armas nucleares, EUA, Russia, China, França e Reino Unido, terem prometido, há mais de 30 anos, eliminar suas armas nucleares. A proliferação de armas nucleares para Israel , India , Paquistão e Korea do Norte e a possível aquisição e produção de armas nucleares por organizações não estatais, tem aumentado o perigo de uma guerra nuclear intencional ou por acidente mais cedo ou mais tarde.
Milhões de pessoas no mundo todo não aceitam que armas nucleares possam nos defender, nossos países, os valores que acreditamos, nosso mundo, nem o mundo que queremos passar para nossas crianças e netos. Existem muitos grupos e campanhas trabalhando para a eliminação sistemática das armas nucleares através de controle internacional e criar maneiras para que isto aconteça. Uma destas maneiras é se juntar aos Prefeitos que estão chamando os líderes do Governo para a conferência do NPT - Tratado de Não Proliferação Nuclear em 2005.
O mundo precisa de símbolos em comum para se unir. Um símbolo em comum é a foto da Terra tirada do espaço. Esta foto é um símbolo que nos faz entender imediatamente que compartilhamos o mesmo planeta e um futuro em comum. E este futuro em comum está em nossas mãos. É nossa responsibilidade ajudar o mundo a se livrar dos mecanismos que geram violência e sofrimento e investir em uma geração de construtores da paz. É tempo de se começar a educar para a paz e ajudar a passar às crianças e jovens a visão, o conhecimento, habilidades e atitudes que eles precisarão para serem líderes e co-criadores de um mundo de paz, harmonia e justiça para todos.
Fonte: wagingpeace


O Projeto Manhattan

O Projeto Manhattan foi o esforço dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial para desenvolver a primeira bomba atômica. A empreitada sem precedentes reuniu dezenas de cientistas em torno do programa ultra-secreto. A corrida começou no último mandato do presidente Franklin Delano Roosevelt. Em 1939, havia rumores de que a Alemanha nazista de Adolf Hitler estaria desenvolvendo a bomba atômica. As suspeitas haviam sido reforçadas depois que cientistas alemães descobriram, um ano antes, o processo de fissão nuclear, dando a Berlim a dianteira nas pesquisas nucleares. Cientistas alemães exilados nos EUA temiam que Berlim conseguisse manipular o urânio de tal modo a torná-lo próprio para construção de uma bomba atômica e persuadiram o físico Albert Einstein a alertar Roosevelt para o perigo de uma ameaça nuclear nazista. Em carta datada de 2 de agosto de 1939, Einstein destacava que o urânio seria uma nova e importante fonte de energia no futuro próximo e advertia que os EUA não tinham vastas reservas do minério. O alerta funcionou, e Einstein lamentaria suas conseqüências. Com o objetivo de construir uma arma atômica antes da Alemanha e do Japão, os EUA iniciaram seu programa nuclear no fim de 1941, sob a direção do general Leslie Groves. O projeto foi desenvolvido conjuntamente em diversos locais do país, mas a descoberta mais significativa aconteceria na Universidade de Chicago, em Stagg Field, onde Enrico Fermi realizou uma reação de fissão em cadeia controlada.

O primeiro grande desafio do Projeto Manhattan foi justamente produzir urânio enriquecido em grande quantidade para sustentar uma reação em cadeia, numa época em que o urânio-235 (U-235) era muito difícil de extrair. Suas pesquisas amparavam-se em avanços em série, conquistados nos anos anteriores, nos estudos do núcleo do átomo e do poder de sua fissão. Neil Bohr descobrira que o isótopo U-235 era um bom combustível nuclear devido a sua característica instável e poderia sustentar uma reação em cadeia. Já Glenn Seaborg descobrira que o isótopo plutônio-239 (P-239) também poderia ser usado em um armamento nuclear.O segundo grande obstáculo era sustentar uma reação em cadeia, que dá à bomba atômica sua força.

Ao longo de seis anos, de 1939 a 1945, cerca de US$ 2 bilhões foram gastos e quase 150 pessoas participaram do programa, criando meios de enriquecer o urânio. O Projeto Manhattam resultou em três bombas atômicas: Gadget, uma bomba de teste feita de plutônio; "Little Boy", a bomba de urânio que devastou Hiroshima; e "Fat Man", a bomba de plutônio que destruiu Nagasaki.
A partir daí, a História da Humanidade mudaria para sempre.

A terrível herança das bombas sobre Hiroshima e Nagasaki perdura até hoje. Feridas físicas e psicológicas ainda abertas não permitem que o passado seja esquecido com facilidade pelos sobreviventes. Para os japoneses, trata-se da legião de "hibakusha", aqueles que sofreram na carne e na mente o impacto da bomba.

Do clarão atômico e da chuva negra à fuga do pesadelo para bem longe, personagens reais de um dos capítulos mais tristes da História revelam o que muitas vezes guardavam a sete chaves.

O americano J. Robert Oppenheimer é considerado o "pai" da bomba atômica. Oppenheimer formou-se com louvor em química pela Universidade de Harvard e em, 1927, terminou o doutorado em física na Universidade de Gottigen, na Alemanha. Ao retornar para os Estados Unidos, soube das pesquisas em andamento sobre fissão nuclear e começou a pensar em como usar a energia liberada durante essa reação.

Em meados de 1942, Oppenheimer organizou uma conferência na Universidade da Califórnia em Berkeley, durante a qual físicos renomados discutiram a possibilidade de fabricação de uma bomba atômica. No ano seguinte, ele assumiu a direção do laboratório nuclear de Los Alamos, no Novo México, onde um time de cientistas sob seu comando trabalhou no desenvolvimento de uma bomba nuclear. Oppenheimer participou de todas as etapas do Projeto Manhattan.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, depois que o mundo testemunhou os efeitos devastadores das bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, Oppenheimer tornou-se um defensor do controle de armas atômicas. Ele chegou a sofrer censura do governo americano, que o acusou de ser uma ameaça à segurança. Robert Oppenheimer morreu de câncer na garganta aos 62 anos, em 1967.

Sobre o Holocausto

Há 60 anos, um simples ato, uma ordem dada a um piloto da Força Aérea Americana, foi o causador de uma das maiores catástrofes não naturais já registradas na história mundial e que traz conseqüências até os dias de hoje. As cidades japonesas, Hiroshima e Nagasaki foram pulverizadas por bombas atômicas americanas, fato este que definiu o término da II Guerra Mundial (1939-1945). A primeira explodiu em Hiroshima em seis de agosto de 1945. Três dias depois, a operação se repetiu em Nagasaki, que embora tenha sofrido estragos materiais menores do que Hiroshima, o número de vítimas superou a primeira.


Nagasaki, em 9 de agosto de 1945

A história da descoberta de como liberar a energia nuclear, e sua aplicação para fazer bombas capazes de destruir, irradiar e queimar cidades inteiras, é a grande epopéia trágica do século XX. Para construir as primeiras armas, os Estados Unidos investiram mais de US$ 2 bilhões e construíram um complexo industrial, espalhado do Tennessee ao Novo México e ao Estado de Washington, que em 1945 era tão grande quanto a indústria de automóveis americana.
Sessenta anos depois, o Projeto Manhattan esmaece em mito. Os reatores para produção em massa e equipamentos para a extração de plutônio em Hanford, Washington; as instalações para separação de urânio de quase um quilômetro de extensão em Oak Ridge, no Tennessee; os 200 mil trabalhadores que construíram e operaram o vasto maquinário enquanto se esforçavam para manter seu propósito em segredo, tudo desaparece de vista deixando para trás um núcleo vazio de lenda: um laboratório secreto em uma típica colina do Novo México, onde as bombas de verdade eram projetadas e construídas; o carismático diretor do laboratório, J. Robert Oppenheimer, que conquistou reputação internacional até que seus inimigos o derrubaram; um solitário B-29, incongruentemente batizado em homenagem à mãe do piloto, Enola Gay; uma cidade arruinada, Hiroshima, e a pobre Nagasaki, quase esquecida.
Em 6 de agosto de 1945, às 8h65 da manhã, a primeira bomba nuclear usada contra civis foi lançada pelos EUA sobre a cidade de Hiroshima, no Japão. Três dias depois, uma segunda bomba arrasou a cidade de Nagasaki. Mais de 140 mil pessoas morreram nas duas cidades devido aos ataques. Em Hiroshima, apenas 10% das construções ficaram intactas, 62,9% dos edifícios foram totalmente queimados ou destruídos. Uma bolha de fumaça, o famoso "cogumelo", atingiu 12 km de altura em minutos após a explosão.
O que torna essas armas diferentes é a enorme concentração de energia que poderia ser engendrada em um pequeno espaço, capaz de ser liberada de repente, com resultados devastadores. E também porque carrega um subproduto letal, que se estenderia por muitos anos: a radiatividade.
Para relembrar esse triste aniversário de 60 anos, o único bom motivo é que essas foram as duas únicas vezes que uma arma desse tipo foi usada contra alvos civis, desde sua invenção. Um dos criadores da bomba, o físico Philip Morrison (que morreu em abril deste ano) viajou ao Japão logo após a explosão, em 1945, e confessou ter ficado chocado com o que viu. "Não havia restado nada, apenas uma 'cicatriz' sobre o solo".
Hoje, o mundo ainda se pergunta: teria sido possível alcançar a paz sem a bomba atômica? Naquele momento, a consideração dos que decidiam era de ordem numérica. A guerra já ceifara seis milhões de pessoas e consumira uma cifra inimaginável (Só o Projeto Manhattan, da fabricação da bomba atômica, custou US$ 2 bilhões). Os argumentos a favor da bomba colocavam-se como consistentes do ponto de vista militar e irrelevantes do ponto de vista humano. Foi com base na lógica de uma operação puramente militar que decidiu o Comitê Consultivo formado pelo presidente Truman, sob o comando do secretário de Defesa Henry Stimson. A escolha, selada a 9 de maio de 1945, recaiu sobre o Japão também por uma razão que a eles pareceu óbvia: os valentes japoneses jamais aceitariam a rendição, mesmo com a Alemanha e a Itália esfaceladas. O ultimato dos aliados foi oficialmente ignorado pelo imperador Hirohito, após ouvir os líderes militares, três dias antes da tragédia.
A primeira sugestão foi de que a bomba fosse despejada sobre o monte Fuji, principal cartão postal japonês. Kyoto chegou a ser lembrada, pela condição de importante centro religioso, mas descartada por ser pouco populosa. Quanto maior o alvo, maior também o poder de persuasão, resolveu o conselho consultivo. No dia 6 de agosto, o coronel Tibbets deixou a ilha Tinian em direção a Hiroshima, a 2.240 quilômetros. Às 8h61min, a cidade apareceu clara e iluminada bem à frente de seu Enola Gay. Quatro minutos depois, ele ordenou ao major Tom Ferebee que liberasse as 4,5 toneladas da Little Boy. A bomba A carregava em seu interior uma carga de urânio. Quando explodiu, 45 segundos após, a 565 metros de altura, o B-29 já estava a 19 km do ponto zero, a ponte Aioi. Do alto, e com óculos especiais, a tripulação viu um clarão estupendo. Embaixo, os moradores nem sentiram barulho. Um silêncio mortal logo encobriu Hiroshima e enegreceu para sempre a história da humanidade.
A morte veio em ondas consecutivas. Milhares se desintegraram na hora. Seus corpos tornaram-se sombras. Outros foram alcançados pelo vento de 1.200 km que varreu prédios e homens. Nuvens de fuligem radioativa obstruíram o sol. A chuva negra da morte que se seguiu durou seis horas. Um ciclone de fogo acabou de destruir o que restava de vida num raio de 1.500 metros em torno do ponto zero. Os que sobreviveram, tinham estranhas manchas na pele e hemorragias. Morreriam contaminados pela radiação. Dias, meses, anos, décadas se seguiram e os japoneses de Hiroshima e Nagasaki ainda morreriam vítimas da estranha doença contraída em agosto de 1945. Do outro lado do mundo, o Ocidente festejou a tragédia final. No dia 9 daquele mês, uma nova bomba, carregada de plutônio, repetia a operação. A bordo do B-29 Great Artiste, a Fat Man deveria ser despejada sobre a cidade de Kokura, mas uma formação de nuvens fez o avião desviar-se para Nagasaki. Mais de 75 mil mortos por uma estranha contingência do destino. Para os vencedores, a mudança não fez diferença: o imperador assinou a rendição. Nos dias subseqüentes, milhares de japoneses se suicidaram, inconformados com a desonra final da derrota. A história da humanidade encerrava ai o seu capítulo mais negro. A rosa de Hiroshima jamais será esquecida.

OS HOMENS DA BOMBA

Presidente Harry Truman - Coube a ele, como presidente dos Estados Unidos, a decisão sobre o lançamento das duas bombas sobre o Japão. Era um defensor da solução nuclear. Assumiu a presidência em 1945, com a morte do presidente Roosevelt.
Julius Oppenheimer - Com apenas 38 anos, este físico, considerado um dos mais brilhantes de seu tempo, comandou o Projeto Manhattan, que reuniu uma centena de cientistas.
Coronel Paul Warfield Tibbets - Comandou a tripulação de 12 oficiais do B-29 Enola Gay, o bombardeiro de onde foi despejada a Little Boy, a primeira bomba atômica em área povoada. Era um veterano de bombardeios na Europa. O nome Enola Gay foi uma homenagem à mãe dele.
Hirohito - Imperador japonês, responsável pela entrada do Japão na Segunda Guerra Mundial. Só aceitou a rendição após as duas explosões. Permaneceu no poder mesmo depois da derrota de seu país.
General Douglas MacArthur - Comandante das forças militares no Pacífico. Só foi informado da decisão do presidente Truman de lançar a bomba atômica um dia antes, quando já preparava a invasão do Japão pelos aliados.
Fonte: Antares

Os Fanáticos do Imperador


O samurai vingador

Hiroshima e Nagasaki
O livro Corações sujos, de Fernando de Morais, restaura as ações da Shindo Renmei, a até então esquecida seita nipo-fascista que, entre 1945-46, por não aceitar a derrota do Japão na guerra, aterrorizou boa parte da comunidade japonesa em São Paulo. Além do livro ser um grande achado jornalístico, descreve, com a agilidade e presteza de sempre do autor, como o véu ideológico que cobre os militantes pode, contra todas as evidências, repudiar a realidade mais evidente.

Memória e Ideologia


A explosão nuclear foi 
minimizada pela Shindo Renmei

Hiroshima e Nagasaki
Os estudiosos da mente humana sempre se impressionaram com a capacidade que homens e mulheres têm para selecionar e guardar aquilo que os impressiona, que os convêm ou os interessa, manifestando indiferença pelo restante. O cérebro funciona pois como um enorme filtro seletivo, descartando o que lhe parece inconveniente e desinteressante, ressalvando e guardando na memória aquilo que lhe agrada. O mesmo pode-se dizer dos adeptos das ideologias. O século XX foi pródigo em produzir grandes movimentos de idéias e ideais, os mais extremados, os mais arrebatadores, que mobilizaram milhões de adeptos em todo os cantos do mundo, gerando comportamentos muito próprios em seus militantes. As ideologias políticas, porém, não se limitaram a dar aos homens uma visão de mundo (o que Hitler chamava de Weltanchauung), mas também, desde que os acontecimentos lhes fosse politicamente adversos, cegaram-nos para eles. Rejeitar a realidade, mesmo a mais evidente, foi um dos traços mais espantosos e inexplicáveis do comportamento ideológico do século que passou. O caso da seita japonesa Shindo Renmei, que atuou em São Paulo nos anos 40, encaixa-se perfeitamente neste caso de negação absoluta do real.

A Dor da Derrota


O general MacArthur, em posição
 informal, ao lado do imperador Hiroito

Hiroshima e Nagasaki
Nos dias seis e nove de agosto de 1945, aviões norte-americanos lançaram duas bombas atômicas sobre o Japão, contra quem os Estados Unidos estavam em guerra desde dezembro de 1941. O efeito foi devastador. As cidades de Hiroxima e Nagasaki, num par de minutos, deixaram de existir. Estimaram-se as baixas em 150-200 mil pessoas, incineradas pelo calor desprendido da explosão nuclear e pelos efeitos da radiação. Simultaneamente a este desastre de dimensões humanas sem precedentes, a União Soviética destruía as forças japonesas remanescentes que ocupavam a região da Manchúria chinesa. Atacado por terra, mar e pelo ar, tendo seu território e a sua população submetida ao cerco e aos aterrorizantes bombardeios, só restou ao outrora todo-poderoso Império do Sol Nascente aceitar render-se. Não foi uma decisão fácil. Em seus 2.600 de história, o Japão jamais sofrera uma derrota sequer, mantendo seu arquipélago a salvo de todas as invasões. Assim, foi um espanto geral quando os súditos japoneses ouviram pelo rádio, no dia 15 de agosto de 1945, a voz do imperador Hiroito, tido como um deus-vivo, o descendente da divina deusa do Sol, Amaterasu Omikami, explicando-lhes a necessidade, sem mencioná-la explicitamente, de uma capitulação incondicional

Japoneses no Brasil


Campos Sales e R. Alves 
estimularam a imigração japonesa

Hiroshima e Nagasaki
A chegada da primeira leva de imigrantes japoneses ao Brasil em 1908 fazia parte do um vasto programa adotado pelas autoridades brasileiras desde o Segundo Império, quando a escravidão deu para declinar. A falta de braços para a lavoura cafeeira em expansão permanente obrigou a que o país adotasse um agressiva política em busca de colonos e de braceiros que para cá viessem em substituição ao sistema escravista que entrara em colapso a partir de 1888. Como, em geral, eram paulistas ou mineiros os presidentes da República daquela época (Prudente de Morais, Campos Salles, Rodrigues Alves e Afonso Penna), expressando justamente os interesses do dois estados voltados para dar sustentação à lavoura do café, a preciosa imigração japonesa foi canalizada basicamente para o Oeste paulista. Diligentes, devotados ao trabalho e à ordem, os recém-chegados espalharam-se pelo triângulo formado pelas cidades de Bauru, Araçatuba e Presidente Prudente, onde estabeleceram as suas principais colônias.

Medidas Repressivas

A imigração dos filhos do Sol Nascente não foi acolhida por unanimidade entre os políticos brasileiros. Havia entre eles os chamados "eugenistas" que, influenciados pelas idéias raciais, consideravam os japoneses inassimiláveis, uma raça estranha ao corpo nacional. Com a eclosão da guerra do Império nipônico contra os Estados Unidos em 1941, o governo de Getúlio Vargas, apesar de não declarar guerra ao Japão, procurou mantê-los sob uma vigilância cada vez mais crescente. Os imigrantes japoneses passaram a viver sob a situação de estado de sítio permanente, pois viram-nos como potenciais traidores, capazes de auxiliar os nazistas a afundarem os navios brasileiros (o Brasil havia entrado na guerra em agosto de 1942, perdendo até o final dela 32 navios mercantes e três de guerra, com mais de 1.400 mortos). Durante quatro anos, até o conflito se encerrar em agosto de 1945, a colônia japonesa amargou o pão que o diabo amassou, vendo serem fechadas as escolas onde suas crianças aprendiam o Yamatodamashii (a maneira nipônica de ser) e até sendo proibida de falar a sua língua em público.

Confisco e Isolamento

Esta política de sufoco culminou no decreto de 11 de março de 1942 que confiscou um percentual dos depósitos dos súditos do Eixo existentes nos bancos brasileiros, a título de compensação pelas perdas sofridas pelo Brasil na guerra, e na liquidação extrajudicialmente de todas as empresas de certo porte que fossem de propriedade de italianos, alemães ou japoneses. O que contribuiu para que as colônias japonesas, cercadas pela hostilidade da vizinhança, proibidas ainda de possuírem receptores de rádio, mergulhassem num isolamento quase que completo. Foi em meio a isso, a uma guerra em andamento e a perseguição tentacular que lhe movida o governo que surgiu a seita patriótica Shindo Renmei.

Estranhas Núpcias


Amaterasu, a deusa-mãe 
da família imperial

Hiroshima e Nagasaki
O pretexto do encontro era a celebração de uma núpcias. O local escolhido foi o Hotel Sawaya na cidade de Marília, interior de São Paulo. A intenção dos que compareceram, uma pequena multidão de japoneses atraídos para o banquete, era fundar as bases de uma sociedade patriótica que desse apoio moral à guerra movida pelo imperador e ao mesmo tempo lutasse pela preservação dos valores mais altos da maneira japonesa de ser. A data escolhida revelou-se desastrosa, porque exatamente naquele agosto de 1942 inúmeros navios brasileiros haviam sido afundados e aquela aglomeração de gente da colônia para oficiar ainda que um casamento foi interpretada pelos marilienses como uma odiosa provocação. Não demorou para que o salão do hotel, decorado com bandeiras do sol nascente e imagens de Hiroito, se visse invadido por uma turba furiosa disposta a dissolver o encontro à pauladas e porretadas. Esse incidente em Marília foi um dos primeiros, de tantos outros, bem mais graves, em que se opôs a comunidade japonesa com a população paulista, onde até linchamentos ocorreram.

A Liga do Caminho dos Súditos

Não muito longe de Marília, escapados do linchamento do hotel assaltado, acolhidos numa galpão de um a chácara de um patrício, o ex-coronel do exército imperial Jungi Kikawa, e um pequeno grupo de escolhidos, fundava a Liga do Caminho dos Súditos (Shindo Renmei), uma entre tantas outras seitas patrióticas (eram umas trinta) que emergiram naquela época de guerra. A Shindo porém, apoiada em 64 municípios e com 100 mil sócios-contribuintes, deixaria sua marca de sangue na história da imigração japonesa. A sua função original foi abastecer clandestinamente, por meio de mascates da Casa Paulista (a fachada legal da Shindo Renmei), a comunidade japonesa com boletins informando o andamento da guerra, sem a contaminação da "propaganda americana". Além disso procurava manter o moral alto, enaltecendo os valores pátrios e a cultura ancestral japonesa.

O Drama da Rendição


A cultura ancestral
 a ser preservada

Hiroshima e Nagasaki
O diabo deu-se ao término da guerra, quando o representante do imperador rendeu-se no dia dois de setembro de 1945, numa cerimônia a bordo do encouraçado Missouri, ancorado na baía de Tóquio, perante o general Douglas MacArthur. A comunidade japonesa imediatamente cindiu-se em dois grupos conflitantes. De um lado encontravam-se a minoria dos makegumi (os "derrotistas" ou "esclarecidos") que aceitavam a derrota como uma fatalidade inquestionável (em geral gente próspera, os "burgueses" da comunidade nipônica, melhor informados e mais adaptados à vida brasileira) . Do outro os auto-intitulados kachikumi, "os vitoriosos", o imenso exército de lavradores, chacareiros, feirantes, tintureiros, a raia miúda da imigração, cujo sonho era juntar dinheiro e algum dia voltar para o Japão.                      A cerimônia de rendição
 do Japão (02/09/1945)

Hiroshima e Nagasaki
Foi a eles que a Shindo Renmei se dirigiu, apontando o seu dedo vingativo contra "os corações sujos", os makegumi que diziam que era verdade sim, o Império não mais existia, o Japão fora derrotado. Em frente às casas desses renegados do imperador foram então fixados cartazes ou dizeres infamantes, alertando-os para que "limpassem a garganta de traidores para não sujar a espada que os degolaria".

Os comandos entram em ação


O coronel Kikawa
 em trajes cerimoniais

Hiroshima e Nagasaki
O coronel Kikawa, um sexagenário de 1,51 metro de altura, com expressão comuníssima, e que havia se tornado dono de uma tinturaria em São Paulo, detido por fazer ameaças aos seus concidadãos, nem quando foi solto pelas autoridades brasileiras desistiu das coações e intimações. Ninguém o convenceu, enquanto estava preso, de que a rendição do Japão, seguida do Rescrito Imperial, haviam de fato ocorrido. Para ele nada mais era do que um embuste da propaganda americana, uma cortina de fumaça para enganar os japoneses emigrados. Como conseqüência disto não só dedicou-se a forjar incontáveis boletins diários e orientar na falsificação de fotografias para provar justamente o contrário - que eram os Estados Unidos que havia se rendido ao Japão - como considerou todo o japonês que divulgasse a verdade como um traidor da pátria. Para esses ele reservou um destino especial: seriam eliminados pelos tokkotai, as unidades especiais de ataques, chamadas Batalhões do Vento Divino, que lembravam os fascio di combattimento da época de Mussolini, mas com um toque de cangaço.

As Listras Negras


E. Sakani, um tokkotai errático

Hiroshima e Nagasaki
A Shindo Renmei preparou listas dos makegumi a serem mortos e distribuiu as tarefas de liquidá-los por vários grupos de tokkotai espalhados pelo interior de São Paulo e pela capital. Sucederam-se então uma série impressionante de atentados nos quais os "derrotistas" foram, por vezes, executados em frente aos seus familiares. As baixas provocadas pelos fanáticos do imperador superaram a 170 vítimas (23 mortos e 147 feridos). A comunidade japonesa entrou em polvorosa e as autoridades brasileiras correram a tomar as providência devidas: 31.380 japoneses tidos como simpatizantes da Shindo Renmei foram detidos e identificados.

Uma Situação Nonsense


Bandeira de guerra do Japão

Hiroshima e Nagasaki
Ao saber que a razão daqueles crimes era a negativa de boa parte da comunidade japonesa a aceitar a derrota de 1945, o interventor do estado de São Paulo José Carlos Macedo Soares marcou para o dia 19 de junho de 1946 (quase dez meses depois da capitulação do Japão) um encontro com as lideranças da mais representativas da comunidade. Queria usar o princípio da autoridade do governo brasileiro para neutralizar o princípio da fidelidade ao imperador, um contraveneno às intrigas e absurdos difundidos pela Shindo Renmei. Pensou que se ouvissem dele uma declaração oficial de que a "Esfera da Co-Prosperidade da Grande Ásia Oriental", o projeto imperialista do Japão, tinha sucumbido e que o Hiroito de fato se rendera, eles acatariam sua palavra.

Exigências Absurdas

Hiroshima e Nagasaki
Que nada. Entre os mais de 500 japoneses presentes nenhum aceitou a verdade. Não só isso, exigiram do governo paulista que de alguma forma impedissem que o noticiário fizesse qualquer menção à derrota japonesa. O que causou uma natural indignação nacional com tal petulância. Seja como for, as imensas redes policiais, apoiadas em verdadeiras operações militares do exército brasileiro, realizadas nas cidades de Osvaldo Cruz, de Tupi, de Bical e Marília, conseguiram paralisar os terroristas tokkotai que, juntos com as lideranças, foram presos e identificados. Em pouco tempo a Shindo Renmei deixou de existir recolhendo-se então para um longo esquecimento de quase meio século, do qual somente saiu pelo exemplar livro-reportagem de Fernando de Morais.
Fonte: educaterra