Publicado
na Folha de S.Paulo, quinta-feira, 8 de fevereiro de 1962
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Sem nenhum outro intuito que não o de combater os conservadores da epoca e de criar alguma coisa de novo nas varias manifestações artisticas, eclodia em São Paulo, há 40 anos, movimento ainda hoje discutido e que logo depois de iniciado teve grande repercussão —a "Semana de Arte Moderna". Durante 8 dias —de 9 a 16 de fevereiro de 1922— o Teatro Municipal serviu de palco aos jovens intelectuais, então chamados de "futuristas", que, inconformados com o academismo reinante na literatura, na musica e nas artes plasticas, resolveram abrir trincheiras em busca de um movimento renovador. E o conseguiram, não obstante a ferrenha oposição de muitos, conforme registram cronicas, noticias e outras publicações da epoca. O grupo vanguardista - Graça Aranha, Mario de Andrade, Osvald de Andrade, Menotti del Picchia, Ronald de Carvalho, Renato de Almeida, Ribeiro Couto e Guilherme de Almeida, na literatura; Vila-Lobos, na musica; Anita Malfati, Di Cavalcanti, Vicente do Rego Monteiro, Zina Aita, John Graz, Ferrignac, Ian de Almeida Prado e Martins Ribeiro, na pintura; Victor Brecheret e W. Haerberz, na escultura; e Antonio Moya e George Przrember, na arquitetura —permaneceu unido, resistindo às investidas dos que chegaram a classificar o movimento como sendo de "loucos" e de "irresponsaveis". E foi graças a esse elo que a "Semana de 22" alcançou o objetivo visado: despertar a consciencia dos artistas em formação ou veteranos para a grande batalha —a da renovação das artes. |
Anita, a pioneira
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— "O que eu penso da "Semana de 22"? Foi alguma coisa de inesquecivel, que sacudiu os meios artisticos de todo o país. E mais do que justo, porque era realmente impossivel tolerar-se o academismo, a inercia, o mau-gosto da epoca. Alguma coisa tinha de ser feita. Assim, eu me orgulho de ter contribuido com uma parcela para o exito do movimento" —são expressões da pintura Anita Malfatti, apontada como a pioneira da arte moderna no Brasil. Repousando em sua casa de campo, no municipio de Diadema, a artista —que estudou na Alemanha e frequentou os grandes ateliês da França, Italia e dos EUA— revela que a "Semana de 22" foi o que houve de mais combatido na epoca. —"Mas o nosso grupinho —salienta— manteve-se despreocupado e com isso nos impusemos". A titulo de curiosidade, ela informa que era comum encontrarem colados atrás dos quadros expostos no saguão do Teatro Municipal "bilhetinhos desaforados e alguns até inconvenientes". |
Contra o abstrato
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Enquanto mostra ao reporter algumas das numerosas pinturas que ainda conserva, a artista paulistana assinala que, embora o movimento de 1922 visasse mudança do panorama artistico, no tocante à pintura, jamais se pensou que poderia descambar para o grau de abstracionismo que hoje se verifica. — "O que mais estranho não é propriamente a repetição que se nota na quase totalidade dos artistas abstracionistas, pois isso se transformou num fenomeno universal, mas sim o fato de o Brasil ser riquissimo em temas autoctones —e tão poucos artistas os aproveitam com categoria. Com isso, à exceção de uma minoria que luta pela autentica arte nacional —e eu me sinto incluida entre eles— a maioria não faz outra coisa senão repetir, nada criando. Uma das causas que está a provocar essa situação é a influencia comercial: porque a preocupação de muitos artistas é a de apenas vender, deixando para segundo plano a arte em si, a pesquisa". |
Ainda procurando
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Anita Malfatti diz que ela própria continua procurando resolver o problema da autentica arte nacional. Seus quadros não a desmentem; os temas regionais ali sempre estão presentes. Não faltam em suas pinturas festas da roca, gente do campo, orações entre caboclos, comemorações juninas etc. A artista ainda hoje pinta, embora sua primeira exposição, na rua Libero Badaró, em 1917, causasse escandalo pelo "modernismo" de suas linhas. Sentada numa cadeira de balanço, Anita traça figuras, casas, arvores, balões de São João, santos e meninos de cor esqualida com a mesma disposição e dedicação de há meio seculo —garante a pintora. — "O dia em que eu parar de pintar pode anotar, eu morro" —diz Anita com os olhos bem abertos. Ela gostaria (e tem fé mesmo) de viver como a "Grandma" Moses, celebre pintora norte-americana falecida há poucos meses, com 101 anos: lidar com sua arte até o ultimo sopro de vida. |
Di: sem definição
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Outro "sobrevivente" do movimento de reação é o pintor carioca Emiliano Di Cavalcanti. A pergunta como definiria a "Semana" após quatro decadas de sua realização, respondeu: — "Cabe aos criticos definir, passados os 40 anos, a realização artistica de 1922 e suas consequencias. Nunca pude definir precisamente o que foi a "Semana" e como ela atua dentro de mim mesmo. Só sei senti-la que é diferente. Sinto-a como motivo categorico de afirmação na minha personalidade, de moço turbulento e afirmação que me ensinou a perseverar nos motivos que me levaram a realizá-la". Di, que já completou 65 anos (45 de pintura), resguarda em suas obras as seguintes "marcas registradas": a) Luta pela liberdade de expressão; e b) sentimento nacional. Sua opinião é de que a "Semana" abriu um novo caminho na arte, "desafogando o transito na velha estrada do academismo". |
Para libertar
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Artista dos mais apreciados e discutidos, Di Cavalcanti - que certa vez disse de si: "Eu sou escritor, poeta bissexto e caricaturista" —fala depois sobre as consequencias do movimento de 1922, de maneira especial quanto à influencia da "Semana" no aparecimento de numerosos artistas abstratos. — "Conheciamos os movimentos não formalistas das artes na Europa, cujas primeiras manifestações já datavam de alguns anos. Mas o nosso movimento não tinha por finalidade indicar caminhos ou trilhar determinada escola de arte. A finalidade era libertar o artista de um atraso academico. Se os artistas brasileiros ou estrangeiros, habitando o Brasil, são atualmente na maioria abstracionistas, é porque mediocremente apegam-se a um novo academismo, demonstrando não possuirem o espirito que dominou a "Semana de 1922". |
Arte brasileira
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— E existem em consequencia da "Semana de Arte Moderna" a autentica arte brasileira? "É um absurdo —diz o artista— perguntar, se num país como o Brasil, se há arte autenticamente brasileira, tratando-se da arte como fenomeno cultural." Para melhor compreensão do seu ponto de vista, acrescenta: — "Toda tendencia cultural no Brasil é uma procura de aproximação com o pensamento europeu. Nosso problema de desenvolvimento cultural é o de alcançar o nivel das altas culturas européias, como para a Renascença foi atingir o nivel superior do pensamento greco-latino. Ser autenticamente brasileiro, em arte, é assimilar o conhecimento ao sentimento, é desenvolver a aquisição cultural, dentro do quadro das realizações propriamente nacionais." Di Cavalcanti pode ser assim "pintado": 1) acha que nasceu pintor; 2) escreveu "Viagem de Minha Vida", em 2 volumes; 3) admite que sofreu influencia da escola de Paris, onde plasmou sua formação estetica; 4) procura ser "acima de tudo Di Cavalcanti"; 5) gosta demais de poesias, especialmente de Manuel Bandeira, Ribeiro Couto, Carlos Drumond de Andrade, Cassiano Ricardo, Frederico Schimidt e João Cabral; 6) sua primeira exposição foi em 1916, no Rio, no Salão dos Humoristas. |
Emancipação das artes
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Como testemunha da "Semana de Arte Moderna", o intelectual, critico e divulgador das artes plasticas Paulo Mendes de Almeida deu este depoimento: "A "Semana" constituiu primeiro movimento coletivo no sentido da emancipação das artes e da inteligencia brasileiras. Naqueles dias agitados de 22, concertos, conferencias, recitativos, bailados e uma exposição de artes plasticas compuseram o programa do certame, que teve por sede o Teatro Municipal, e tudo se passou entre vaias, protestos, discussões e turbulencias, nas noites quietas da então pacata cidade". Após citar os nomes daqueles que sacudiram o academismo então reinante, sugere a transcrição de breve depoimento de Mario de Andrade, ao lhe ser perguntado: - quem teve a idéia da "Semana"? O texto do autor de "Macunaima" tem este começo: "Quem teve a idéia da Semanas de Arte Moderna? Por mim não seu quem foi, nunca soube, só posso garantir que não fui eu. O movimento, alastrando-se aos poucos, já se tornara uma especie de escandalo publico permanente. Já tinhamos lido nossos versos no Rio de Janeiro; e numa leitura principal, em casa de Ronald de Carvalho, onde tambem estavam Ribeiro Couto e Renato de Almeida, numa atmosfera de simpatia, "Paulicéia Desvairada" obtinha o consentimento de Manuel Bandeira, que em 1919 ensaira os seus primeiros versos livres no "Carnaval". E eis que Graça Aranha, celebre, trazendo da Europa a sua "Estetica da Vida", vai a São Paulo, e procura nos conhecer e agrupar em torno de sua filosofia. Nós nos riamos um bocado da "Estetica da Vida" que ainda atacava certos modernos europeus da nossa admiração, mas aderimos francamente ao mestre. E alguem lançou a idéia de se fazer uma semana de arte moderna, com exposição de artes plasticas, concertos, leituras de livros e conferencias explicativas. Foi o proprio Graça Aranha? Foi Di Cavalcanti?... Porem, o que importava era poder realizar essa idéia, alem de audaciosa, dispendiosissima. E o fator verdadeiro da "Semana de Arte Moderna" foi Paulo Prado. E só mesmo uma grande figura como ele e uma cidade grande mas provinciana como São Paulo poderiam fazer o movimento modernista e objetivá-lo na "Semana". Paulo Mendes de Almeida assevera que, pelas afirmações de Mario de Andrade, foi um pouco de cada um daqueles reformadores que ajudaram a objetivação de uma idéia logo aceita. Frisa, contudo: - "Não devemos fiar-nos na modestia com que Mario de Andrade omite sua propria e importante contribuição". |
O mais importante
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Para Paulo Mendes de Almeida o mais importante não é apurar quem teve a idéia da realização da "Semana", mas diagnosticar o que o movimento pretendia, o que representava, o que alcançaria. Para tanto, esclarece que não será tarefa facil. Diz: — "Em primeiro lugar, era o que pudesse haver de mais heterogeneo, quando aspirava a ser principalmente heteroclita (que se desvia das regras da arte), como proclamavam os mais afoitos. Nela, se pode dizer, somente num ponto houve uma quase unidade ideologica: o da necessidade de mudar. De mudar, sem que se precisasse bem o que, nem para onde. Foi isso o que lhe deu o carater eminentemente destrutivo, sendo sob esse aspecto, de resto, que ela ganha para nós extraordinaria importancia. Porque o ideario mesmo era o que de mais vago se possa imaginar. Verdade é que constituia quase uma constante o sentimento nacionalista, o desejo de redescobrir, ou melhor, de descobrir afinal o Brasil. Na realidade, não conseguiram fazê-lo, pois que somente mais tarde o Brasil nos seria efetivamente desvendado, pela equipe de homens da geração de 1930, numa tarefa a que o sr. Gilberto Freire veio dar explicação, consciencia e conteudo em termos de sociologia." |
O safanão
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Enfim, após outras considerações Paulo Mendes de Almeida afirma que se sentia à vontade para afirmar que, não obstante todas as suas falhas, a "Semana de Arte Moderna" constituiu evento da maior relevancia. — "O movimento já não era um gesto isolado de rebeldia que presenciavamos, mas um clamor em coro, um movimento de grupo, em que se integravam importantes personalidade, e que deu, positivamente, um safanão naquele adormecido em berço esplendido Brasil das letras das artes e do pensamento." |
FAÇA DIFERENTE
FAÇA a COISA CERTA
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
DISCUTIDA AINDA EM NOSSOS DIAS, COMPLETA 40 ANOS A "SEMANA DE ARTE MODERNA"
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Semana de Arte Moderna
O SARAMPO ANTROPOFÁGICO
A respeito do
movimento modernista, os críticos e os estudiosos entram em sintonia num ponto:
a Semana de Arte Moderna, realizada em 1922, em São Paulo, representou um
marco, verdadeiro ponto de inflexão no modo de ver o Brasil.
Não só de ver como de escrever sobre o Brasil. Em geral, os artistas e intelectuais de 1922 queriam arejar o quadro mental da nossa "intelligentsia", queriam pôr fim ao ranço beletrista, à postura verborrágica e à mania de falar difícil e não dizer nada. Enfim, queriam eliminar o mofo passadista da vida intelectual brasileira. Do ponto de vista artístico, o objetivo fundamental da Semana foi acertar os ponteiros da nossa literatura com a modernidade contemporânea. Para isso, era necessário entrar em contacto com as técnicas literárias e visões de mundo do futurismo, do dadaísmo, do expressionismo e do surrealismo, que formavam, na mesma época, a vanguarda européia. Desse ângulo, o modernismo é expressão da modernização operada no Brasil a partir da década de 20, que começava a dar sinais de mudança (vide, no plano político, o movimento rebelde dos tenentes) de uma economia agroexportadora para uma economia industrial. Esse juízo é, do ponto de vista mais geral, certeiro; no entanto, ele não deve esconder as diferenças no seio do movimento de 22. Diferenças de ordem política, ideológica e estética. Na verdade, houve duas correntes modernistas: uma de inspiração conservadora e totalitária, que iria, em 1932, engrossar as fileiras do integralismo, e outra, mais crítica e dissonante, interessada em demolir os mitos ufanistas e contribuir para o conhecimento de um Brasil real que não aparecia nas manifestações oficiais e oficiais da nossa cultura. O pressuposto essencial de 22, o autoconhecimento do País, tinha a um só tempo de acabar com o mimetismo mental e denunciar o atraso, a miséria e o subdesenvolvimento. Mas denunciar com uma linguagem do nosso tempo, moderna, coloquial, aproveitando o arsenal estilístico e estético das inovações vanguardas européias. Essas duas correntes se delineiam em 1924, com a publicação do primeiro manifesto de Oswald de Andrade, Pau Brasil, no "Correio da Manhã". Nele já estava inscrito o lema que guiaria toda a atividade artística e intelectual da ala crítica modernista: "A língua sem arcaísmos, sem erudição. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos". A outra corrente, conservadora, que iria opor-se a Oswald de Andrade, seria conhecida por verde amarelismo, cujo batismo mostra bem a filiação nacionalista e xenófoba: um canto de amor, cego e irrestrito, às "glórias pátrias". Em 1928, essa oposição recrudesce. E, com ela, a politização do modernismo. Verde-amarelismo transmuta-se em Anta; Paulo-Brasil deságua no movimento antropofágico. Neste mês de maio faz 50 anos que o inquieto, o irreverente e zombeteiro Oswald de Andrade escreveu o manifesto literário antropofágico. De lá para cá muita coisa mudou no Brasil. Tanto política como culturalmente. Apesar de marcado ainda por traços de dependência, o País se industrializou nas últimas décadas; houve mudanças sociais e econômicas significativas. Se não quisermos apenas celebrar ingenuamente a data, temos de nos perguntar: teria ainda alguma coisa a dizer e a ensinar o manifesto literário escrito em 1928? Para isso, seria preciso situar o núcleo da antropofagia, que Oswald de Andrade, aliás, nunca formulou clara e explicitamente; seu manifesto foi escrito numa linguagem elíptica, repleta de ambiguidades e sem ligação explícita entre as frases. Mas, mesmo assim, dele é possível extrair algumas formulações. O que o caracteriza é a retratação do caráter assimétrico da nossa cultura, onde coexistiam o bacharelismo de Rui Barbosa, ou as piruetas verborrágicas de Coelho Neto, junto com as experiências vanguardistas do pintor Portinari. E hoje, de um lado, a moda de viola e a música sertaneja; doutro lado, a bossa nova e o cinema novo. Essa mistura, por assim dizer, era vista como resultado do desenvolvimento histórico no Brasil que, apesar de unitário, apresenta um abismo entre os aspectos arcaicos e modernos, entre as favelas e os arranha-céus, entre os guardadores de carro e os "shopping-centers", entre Embratel e Piauí.
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O manifesto
antropofágico tocou no cerne do capitalismo no terceiro mundo: a dependência.
Ou pelo menos captou seus reflexos no plano da cultura. Denunciou o
bacharelismo das camadas cultas, que permanecem alheadas da realidade do País,
reproduzindo os simulacros dos países capitalistas hegemônicos. Ironizou a
consciência enlatada de largos setores do pensamento brasileiro, que se
comprazem, quando muito, em assimilar idéias, jamais criá-las. Se Oswald de
Andrade teve a lucidez de ridicularizar com o mimetismo que tanto seduz o
intelectual solene e bacharel, ele não caiu no equívoco de fechar as portas do
País do ponto de vista cultural. Ao contrário, sua formulação em torno da
"deglutição antropofágica" exige o remanejamento das idéias mais avançadas
do Ocidente em conformidade com a especificidade de nosso contorno social e
político.
Nesse ponto é difícil negar sua atualidade. Ademais, a estrutura social que a antropofagia reflete e denuncia ainda não mudou em seus aspectos fundamentais. A industrialização das últimas décadas, realizada sob a égide do capitalismo concentracionista, aguçou ainda mais o desenvolvimento desigual em nosso País, trazendo, de um lado, sofisticação e modernização tecnológicas e, doutro lado, engendrando bóias-frias e marginalidade urbana. O Brasil em que Oswald escreveu o manifesto antropofágico e o Brasil de hoje é ainda o mesmo, ostentando, entre outras coisas, "berne nas costas e calosidades portinarescas nos pés descalços".
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A retomada
oswaldina na década de 60 sobretudo pela música popular (através do movimento
tropicalista), tem a sua razão de ser em parte na persistência dessa estrutura
social. Ao contrário da década de 40 - época em que foi injustamente criticado
de escritor desleixado e superficial - Oswald de Andrade goza, nos dias de
hoje, de enorme receptividade, principalmente junto ao público universitário.
Ao lado de Mário de Andrade, que forma o outro pólo da moderna literatura
brasileira, é impossível compreender o sentido e a dinâmica do movimento de 22
sem levá-lo em conta.
Nesse sentido, o manifesto antropofágico é um sarampo que pegou fundo e de maneira duradoura a cultura no Brasil. |
| O texto acima é um editorial. Foi publicado na Folha de S.Paulo no dia 15 de maio de 1978 ASSISTA SOBRE O TROPICALISMO: |
sábado, 10 de dezembro de 2011
Em se plantando nada dá

A carta de Caminha estava errada. Plantar no Brasil foi bem mais complicado do que o patriotismo imagina
Em 26 de abril de 1500, realizou-se a 1ª missa no Brasil. Em 1º de maio de 1500, foi a vez da 1ª ação de marketing. Pero Vaz de Caminha escreveu ao rei dom Manuel o relato da viagem, com o seguinte trecho: “Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados (...) Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem”. Pois é, “em se plantando, tudo dá” é um erro de citação. Seja como for, o trecho é uma desculpa por não terem achado no que estavam realmente interessados - ouro, só encontrado 200 anos depois. Note a menção esquisita aos “ares frios e temperados” em Porto Seguro, na Bahia.
Apesar do otimismo, o fato é que quase nada que os portugueses entendiam por comida nascia no Brasil. Os portugueses até tentaram: em 1532, na 1ª expedição colonizadora, Martim Afonso de Souza plantou trigo em São Vicente. As plantas davam flores, mas murchavam sem grãos. As parreiras nasciam esquisitas, com uvas isoladas, e não rendiam vinho decente. Arroz nascia, mas pouco e em grãos pequenos. Os bois morriam ou passavam mal com o calor e não conseguiam se reproduzir. As terras brasileiras nunca tiveram problema de fertilidade.
O caso sempre foi o clima e as decisões políticas. Parece contrassenso que não se consiga plantar algo que nasce no frio em regiões quentes: plantas vivem de sol. Isso acontece devido à fisiologia delas. “A planta detecta quando é época de dar flores de acordo com a diferença de duração do dia e da noite e pelo calor. Quando uma planta de clima temperado nasce nos trópicos, onde dias e noites são iguais ao longo do ano, não recebe esse sinal”, diz José Roberto Peres, da Embrapa.
O caso sempre foi o clima e as decisões políticas. Parece contrassenso que não se consiga plantar algo que nasce no frio em regiões quentes: plantas vivem de sol. Isso acontece devido à fisiologia delas. “A planta detecta quando é época de dar flores de acordo com a diferença de duração do dia e da noite e pelo calor. Quando uma planta de clima temperado nasce nos trópicos, onde dias e noites são iguais ao longo do ano, não recebe esse sinal”, diz José Roberto Peres, da Embrapa.
Tempos de feijão, farinha e carne-seca
Os colonos portugueses se viravam com o que os índios conheciam: feijão, milho, mandioca, amendoim, batata-doce e pimenta e alguns produtos asiáticos que importaram, como coco, banana, manga e jaca. Na prática, a dieta era bem pobre. “A alimentação colonial era basicamente feijão, farinha e carne-seca”, diz o historiador Carlos Roberto Antunes dos Santos, da UFPR. Se você observar os pratos numa festa junina, pode ter uma ideia da dieta daquela época. Nas fazendas, plantar comida era secundário, só para o sustento. A estrutura agrícola era controlada pelo governo português. “Plantar alimentos aqui exigia o mesmo tipo de licença que para plantar cana”, diz Antunes.
A cana era sinônimo de dinheiro, de bem exportável em forma de açúcar. Assim, o clima brasileiro e as prioridades da coroa favoreceram plantar aqui o que não podia ser plantado na Europa. Na expedição de Martim Afonso, chegou a cana-de-açúcar e o primeiro engenho foi instalado em São Vicente, em 1532. A cana, originária da Índia, foi a base da economia da colônia até tomar um baque dos holandeses, que ocuparam uma grande faixa do Nordeste de 1630 a 1654 e levaram consigo mudas para o Caribe, acabando com o monopólio. A partir de 1727, quando foi plantado no Pará, o café iria se tornar o principal produto de exportação do Brasil. Vindo da Etiópia, a planta prefere um clima um pouco mais ameno e terras altas – adaptou-se melhor a São Paulo, mudando o centro da economia do país.
Enfim, o arroz encontra o parceiro
No século 19, o Império decidiu trazer europeus para o país. O Brasil entraria em sua 2ª fase de produção agrícola. Os europeus trabalharam no café em São Paulo, mas, o que talvez seja mais importante, ocuparam terras quase selvagens no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, adequadas a produtos de clima temperado. E os italianos e alemães não precisaram, como os portugueses antes, abandonar totalmente seus hábitos alimentares. Pela 1ª vez, surgiram plantações em escala de alimentos para venda. Pão de trigo e macarrão entraram na dieta.
Cerveja passou a ser produzida no país. O arroz tornou-se a primeira parte do arroz com feijão. O arroz não tem problemas com o clima tropical, mas se desenvolve melhor em regiões alagadas. Era plantado desde tempos coloniais. Mas isso era feito no seco, o que só rende um terço do arroz alagado e resulta em grãos pequenos, que não ficam soltos quando cozidos. Para plantar em terras alagadas, é preciso áreas planas e amplas e um solo com camada impermeável a pouca profundidade. “Na maioria do país, o solo só vai ter essa camada impermeável a 1,80 m. No Rio Grande do Sul, a 30 cm. Por isso o arroz se deu melhor por lá”, diz Ariano de Magalhães Jr., engenheiro agrônomo da Embrapa.
“Ou o Brasil acaba com a saúva...”
Toda planta importada é uma invasora e pode acontecer duas coisas: a espécie não encontra predadores e doenças locais, o que faz com que se dê melhor no ambiente importado do que no original. Ou encontra predadores e doenças aos quais não está adaptada. A saúva (Atta spp.) foi a grande inimiga das plantas que chegaram ao Brasil. Em 1911, no romance O Triste Fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto faz seu personagem ter sua utopia rural frustrada por um ataque de saúvas. Em 1928, Mário de Andrade colocou na boca de Macunaíma: “Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são”.
Em 1935, sob Getúlio Vargas, o Brasil decretou guerra à formiga. A Campanha Nacional Contra a Saúva tinha o lema “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”. Foi a 1ª iniciativa científica do Estado em lidar com as condições agrícolas. Agrônomos testaram várias soluções, inclusive tatus para comer as saúvas (ideia descartada porque tatus são vetores de doenças). Decidiu-se pelo uso de inseticidas químicos, e isso incentivou a indústria nacional. A saúva é um problema ainda hoje, em escala menor, mas Vargas dava o primeiro passo para implementar no Brasil o que seria chamada de Revolução Verde.
Comendo a vaca sagrada
Com a população aumentando, a demanda por carne também cresceu. O gado europeu, trazido desde o 1º momento da colonização, não era bem adaptado. Em 1904, um boi tido por pronto para o abate, aos 8 anos, pesava 150 kg. Hoje, uma raça considerada média pela Embrapa é abatida entre 450 e 500 kg. Em 1874, Henrique Hermeto de Carneiro Leão, o barão de Paraná, importou do zoológico de Londres um casal de gado indiano – o zebu, que se diferencia do gado europeu por ter corcova, o cupim. Logo se percebeu que as vacas da Índia se adaptavam muito melhor ao clima do Brasil. No início do século 20, produtores brasileiros trataram de importar animais da Índia, mas havia um probleminha: lá as vacas são sagradas, e eles não venderiam seus ancestrais reencarnados para comedores de carne. Os indianos vendiam suas vacas para estrangeiros desde que para zoológicos e circos. Assim, os fazendeiros brasileiros foram atrás dos criadores indianos que haviam vendido para zoos europeus e trouxeram as vacas para cá. Se você come bife, está comendo vacas sagradas. Só a raça nelore, importada da província de Nellore (em Andhra Pradesh), é responsável por 80% da carne consumida no país.
Vinho nordestino
A partir dos anos 1960, e com mais intensidade após a fundação da Embrapa, em 1972, a prioridade passou a ser aumentar a produção e ocupar regiões antes pouco utilizadas para a produção de alimentos – isto é, quase todo o país, sua região tropical. Um caso emblemático foi a soja. Trazida dos Estados Unidos no século 19 e usada basicamente para alimentar o gado, é uma cultura asiática de clima temperado que se adaptou ao sul do país. Por meio de seleção de espécimes menos sensíveis ao calor e pela falta de estações no ano, a partir dos anos 1970, começou a ser plantada no Centro-Oeste.
A produção de soja passou de 1 milhão de toneladas, em 1979, para 57 milhões, em 2009, dos quais 18 milhões foram apenas no Mato Grosso (quase o dobro de Paraná e Rio Grande do Sul, os outros estados com mais plantações). Segundo o agrônomo Roberto Peres, da Embrapa, o trigo também já está pronto para conquistar o cerrado. O Nordeste também não passou despercebido. Nos anos 1960, sob o comando do economista Celso Furtado, foi feito um levantamento das regiões cultiváveis do semiárido.
A produção de soja passou de 1 milhão de toneladas, em 1979, para 57 milhões, em 2009, dos quais 18 milhões foram apenas no Mato Grosso (quase o dobro de Paraná e Rio Grande do Sul, os outros estados com mais plantações). Segundo o agrônomo Roberto Peres, da Embrapa, o trigo também já está pronto para conquistar o cerrado. O Nordeste também não passou despercebido. Nos anos 1960, sob o comando do economista Celso Furtado, foi feito um levantamento das regiões cultiváveis do semiárido.
A soja brota no calor
A partir dos anos 1980, frutas como o melão passaram a ser produzidas no Nordeste, e hoje já começam a ser plantadas outras de clima temperado, como maçãs, peras e caquis ou, o mais surpreendente, uvas para vinho - que precisam de condições muito específicas de sol e frio para dar certo. As plantas exigem frio, e não apenas estações do ano, para produzir um hormônio de crescimento chamado cianamida hidrogenada. Para plantar no Nordeste, os produtores precisam podar as plantas e aplicar o hormônio manualmente. Com os avanços tecnológicos, o que era maldição pode se tornar benesse. Segundo Manuel Abílio de Queiroz, professor de agronomia na Universidade do Estado da Bahia (Uneb), como não há estações do ano, é possível plantar em qualquer época, por demanda. “O agricultor pode até mesmo plantar por encomenda. A colheita passa a responder ao mercado, e não ao clima.” É um futuro promissor para o semiárido.
O fungo que domou Ford
Nativa da Amazônia, a seringueira (Hevea brasiliensis) era conhecida dos europeus desde o século 18. Mas, quando Charles Goodyear inventou a borracha vulcanizada, em 1839, criando um novo material com base no látex, o interesse pela planta explodiu. Usada dos pneus à vedação em válvulas hidráulicas de motores a vapor, a borracha se tornou um dos insumos fundamentais da Revolução Industrial, juntamente com o aço e o carvão. Data-se o início do ciclo da borracha em 1879, quando as exportações atingiram 10 mil toneladas, mas o fim já estava decretado antes do princípio. Em 1876, o inglês Henry Wickam havia levado 70 mil sementes para a Inglaterra a fim de serem estudadas por botânicos. Em 1895, passaram a ser plantadas na Ásia. Em 1900, o Brasil controlava 95% da produção de borracha. Em 1910, 50%. Em 1918, 20%. E, em 1940, 1,3%. Em 1928, Henry Ford tentou ressuscitar a borracha brasileira para produzir pneus para seus carros. Adquiriu 10 mil km² de terras perto de Santarém (PA) e criou Fordlândia, uma colônia com casas ao estilo dos subúrbios americanos. Logo descobriu o que tornava tão mais barata a borracha asiática: plantando as árvores lado a lado, elas foram devoradas por um fungo que não existe na Ásia. Fordlândia durou até 1945, por causa da 2ª Guerra, com os japoneses tomando posse da Malásia e dando uma sobrevida artificial à indústria de borracha do Brasil. Hoje, o Brasil importa dois terços da borracha que consome. Do que nasce aqui, 60% é produzida no estado de São Paulo.
Celeiro do mundo sob suspeita
Parece um final feliz? Bem, nem todos concordam. O movimento pelos orgânicos rejeita diversas tecnologias modernas de agricultura, principalmente agrotóxicos e transgênicos - o 1º algo que permite vencer a saúva no Brasil e o 2º uma possibilidade para a adaptação de mais culturas. O Greenpeace vem denunciando a soja como a nova vilã do desmatamento no país e realiza ações como a de 2006, na Holanda, que tentou barrar a entrada de soja brasileira produzida na Amazônia. O agronegócio também é tido como vilão para certos movimentos sociais. Ainda que hoje o forte do Brasil seja a produção de alimentos, a estrutura fundiária permanece concentrada em grandes fazendas e, em muitos casos, sob a coordenação de grupos multinacionais, como a Cargill e a Monsanto, que fornecem sementes transgênicas, insumos e todo o plano de produção. Não há como pequenos produtores bancarem as máquinas e a extensão de terras necessárias para produzir a preços competitivos. Conflitos rurais mataram 34 pessoas em 2010, segundo a Comissão Pastoral da Terra. De 1995 a 2010, 38 769 trabalhadores foram resgatados de fazendas em trabalho em condições análogas às da escravidão. O agronegócio respondeu por 37,9% das exportações do Brasil em 2010, dos quais a soja, sozinha, respondeu por 8,5% (dados dos ministérios do Desenvolvimento e da Agricultura). Depois de 5 séculos, o país finalmente tem condições de cumprir a profecia de Caminha e se tornar o “celeiro do mundo”. Será uma bênção ou uma maldição?
Cronologia
1532: A cana-de-açúcar, em São Vicente, é a 1ª cultura importada.
1890: O café toma o lugar da cana e o país começa a importar mão de obra
1935: O governo assume o combate à saúva como prioridade nacional.
Anos 60: A soja começou a ser plantada no sul do país. Hoje se transformou na rainha do cerrado
Anos 80: O semiárido nordestino parecia condenado. Hoje, nascem ali plantas de clima frio, como maçãs e uvas para vinho.
FONTE: Aventuras na História / texto Fábio Marton / Design Leandro Guima / ilustrações clouds4sale |
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Dia da Reforma Agrária

O direito à terra é uma reivindicação do homem, desde sempre. São dois os usos que se pode fazer da terra: possuir um pedaço de chão onde se possa morar e produzir alimentos para a família, ou possuir terras para explorá-las e obter lucro.
A propriedade da terra sempre trouxe questionamentos para a humanidade: como deve ser dividida, como deve ser explorada, quem deve ter o direito àquilo que a própria natureza deu ao homem sem nada cobrar. Tem direito quem herdou? Quem cuida bem? Quem é mais pobre e não tem como comprá-la? Tem mais direito quem investe recursos para cultivá-la? Ou tem mais direito quem a preserva como ela é?
A luta pela propriedade e pela divisão da terra já provocou e ainda provoca muitos conflitos, aqui e em outros países. Se voltarmos lá atrás na História, lembraremos dos confrontos entre camponeses, burgueses e aristocracia feudal. Estamos no começo do terceiro milênio e, pelo menos em nosso país, estas questões ainda não tiveram uma solução definitiva, pois geralmente ainda são resolvidas a partir de confrontos extremamente violentos.
DE QUEM É A TERRA?
Ser um proprietário de terra pode significar ter um lote individual de terra. Terras podem ser mantidas em sistema de cooperativa entre várias famílias. Uma grande quantidade de terras pode ser da propriedade de uma só pessoa. Nesse caso, as terras são chamadas de latifúndio e esse proprietário é chamado de latifundiário.
Segundo o Estatuto da Terra (www.incra.gov.br/estrut/pj/lei/4504.htm), Lei 4.504, Art.1º, "considera-se Reforma Agrária o conjunto de medidas que visem a promover melhor distribuição da terra, mediante modificações no regime de sua posse e uso, a fim de atender aos princípios de justiça social e ao aumento da produtividade. "Uma reforma dessas pode acontecer com o propósito de melhorar socialmente a condição de vida das pessoas envolvidas, tornar aquela sociedade mais igualitária, fazendo uma distribuição mais eqüitativa da terra, ou então para propiciar maior aproveitamento econômico de uma região e da renda agrícola, ou mesmo ter os dois propósitos ao mesmo tempo.
MOVIMENTOS DE LUTA PELA TERRA
A luta pela posse da terra também ficou conhecida como luta pela reforma agrária. Na década de 40, destacou-se um movimento ligado ao Partido Comunista, conhecido como Ligas Camponesas, que espalhou-se em todo o Nordeste, fruto da luta em Pernambuco pela desapropriação de uma fazenda chamada Galiléia.
Na década de 80, outro movimento, o MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, com o apoio do Partido dos Trabalhadores e da CUT (Central Única dos Trabalhadores), ganhou projeção nacional, impulsionando a ocupação de terras previstas para serem desapropriadas, pressionando o governo a agilizar o assentamento de famílias acampadas.
COMO SE FAZ UMA REFORMA AGRÁRIA?
Considerando que a terra é um bem da natureza e pode atender as necessidades de todos, acredita-se que a propriedade ou posse da terra deve estar subordinada ao cumprimento dessa função social e poderá ser exercida de várias formas: associação familiar, associação cooperativa, de empresa comunitária, estatal, pública, etc.
Pode-se mudar a estrutura de propriedade de uma terra, por exemplo, através de desapropriações (com indenizações aos proprietários) e expropriações (sem indenização, quando é provado que a terra está sendo usada por grileiros, criminosos, cultivo de drogas, contrabandistas, trabalho escravo etc.); penalizando e recolhendo as terras mal utilizadas ou em dívida de impostos; democratizando o uso de recursos naturais, garantindo o uso coletivo pelas comunidades, para subsistência e extrativismo.
Fonte: www.ibge.br
LEIA MAIS EM: “A estrutura fundiária do Brasil continua a mesma do período colonial”
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Neoimperialismo brasileiro?

Ao mesmo tempo em que o aumento da influência brasileira está sendo vista com desconfiança pelos nossos vizinhos, o sucesso econômico do Brasil é um modelo a ser seguido.
Esse sentimento dúbio, crescente na região, pode ser confundido com neoimperialismo e gerar o surgimento do “antibrasileirismo”, caso o Brasil repita o comportamento das coloniais tradicionais, como os Estados Unidos e Espanha. Isso obriga o País a ser muito mais cuidadoso ao administrar as reações a sua expansão no continente. Existem formas para diminuir essa hostilidade como, por exemplo, fomentar a cooperação técnica e convencer de que todos têm a ganhar com essa integração, tão sonhada por Simon Bolivar.
Em 2008, durante o governo Lula, a expulsão da construtora brasileira Odebrecht do Equador foi um dos primeiros indícios dessa resistência. A empresa foi acusada pelo governo de cometer irregularidades na construção da usina hidrelétrica San Francisco, que teve de ser fechada depois de um ano de uso. A medida também cancelou a construção de quatro projetos que estavam sob responsabilidade da construtora.
O presidente Rafael Correa também ameaçou expulsar a Petrobras caso a empresa não aceitasse as novas regras determinadas pelo governo equatoriano para a exploração petrolífera. Na Bolívia, dois anos antes, o exército já havia ocupado todos os campos de petróleo e gás natural do país, principalmente os explorados pela estatal brasileira de petróleo, sob o argumento de que todos os contratos de exploração deveriam ser revistos.
Recentemente, o governo da província de Mendoza, na Argentina, suspendeu a exploração de potássio feito pela Vale, com investimento de US$ 8 bilhões. O governo acusa a mineradora de não cumprir acordo para a utilização de fornecedores e mão de obra local.
No Peru, a licença para a construção da hidroelétrica de Inambari, a ser tocada pela OAS, Furnas e Eletrobras, foi cancelada. Comunidades locais protestavam contra prováveis danos ambientais e acusavam o projeto de beneficiar somente o Brasil.
Nossos vizinhos desejam receber investimentos brasileiros e enxergam o Consenso de Brasília como modelo para o crescimento da região, mas querem evitar possíveis abusos. Da mesma forma que o Itamaraty defende um crescimento regional sustentável e igualitário, orquestrado nos moldes da União Européia, um colonialismo no novo milênio, puxado pelos gigantes emergentes não trarão igualdade de condições para aqueles que não aguentam mais ser quintal dos outros.
Isto está bem claro quando o presidente-eleito do Peru, Ollanta Humala, disse: “não queremos repetir com o Brasil o ditado mexicano que diz que a desgraça do México é estar tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”.
FONTE:Carta Capital / Leonardo Calvano
Relação Brasil-África pode religar os 2 lados do Atlântico, diz Banco Mundial

Relatório fala de cooperação entre Brasil e África em setores como energia, agricultura e saúde
Outrora pedaços de um único território, Brasil e África estão desenvolvendo um modelo de relações que tem o potencial de religar as duas margens do Atlântico Sul, segundo um relatório do Banco Mundial obtido pela BBC Brasil.
O documento, cuja versão inicial deve ser divulgada no fim deste mês, analisa a intensificação das relações entre Brasil e África a partir de 2003, quando o governo Luiz Inácio Lula da Silva elegeu o continente como uma das prioridades de sua política externa, parte da estratégia de ampliar a influência brasileira no mundo.
"Há cerca de 200 milhões de anos, África e Brasil integravam o continente de Gondwana. Hoje, ambos estão restabelecendo conexões que podem criar impactos significativos na prosperidade e no desenvolvimento dos dois", afirma o Banco Mundial.
Segundo o relatório, um dos principais aspectos dessa aproximação foi o incremento no comércio entre Brasil e países africanos, que quintuplicou entre 2000 e 2010, passando de US$ 4 bilhões para US$ 20 bilhões.
O banco salienta o papel do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) nessa relação: em 2008, o banco emprestou US$ 477 milhões (R$ 838 milhões) a empresas brasileiras com operações na África; em 2010, o valor subiu para US$ 649 milhões (R$ 1,14 bilhão).
Essas companhias, afirma o relatório, estão presentes em quase todo o continente e atuam sobretudo nos setores de infraestrutura, energia e mineração.
Embora a operação dessas empresas na África tenha se tornado mais visível nos últimos anos, o documento diz que elas começaram a atuar no continente nos anos 1980, o que hoje as deixa em posição privilegiada.
Outro aspecto destacado pelo Banco Mundial é que as companhias brasileiras tendem a contratar trabalhadores locais em seus projetos, favorecendo sua capacitação profissional. Essa postura contrasta com a da China, que nos últimos anos tornou-se principal parceira econômica de muitos países africanos, mas às vezes é contestada por empregar majoritariamente operários chineses em seus empreendimentos no continente.
O Banco Mundial também cita o papel desempenhado por pequenas e médias empresas brasileiras na África. Segundo o relatório, numa feira de negócios em São Paulo em abril de 2010, companhias brasileiras e africanas fecharam acordos de US$ 25 milhões nos setores de bebidas, alimentos, roupas, calçados, automóveis, eletrônicos, construção e cosméticos.
Programas de cooperação
Além da aproximação comercial, o relatório trata da crescente cooperação entre Brasil e nações africanas nos setores de agricultura, saúde, energia, proteção social e capacitação profissional.
O banco afirma que, graças a características geofísicas comuns (como clima e tipos de solo), a tecnologia brasileira costuma se adaptar a muitas regiões africanas. Diz ainda que sucessos recentes do Brasil nos campos social e econômico atraíram a atenção de muitos países na África, além dos lusófonos com quem o Brasil tem conexões históricas.
O relatório cita parcerias entre os governos do Brasil e de países africanos para o tratamento de HIV/Aids, malária e anemia falciforme e diz que a experiência brasileira em proteção social está sendo adaptada e replicada no Quênia, Senegal e em Angola.
Ainda assim, afirma que, como esses projetos começaram há menos de dez anos, é difícil mensurar seus resultados.
"No entanto, em muitos casos, resultados iniciais têm sido positivos, destacando o potencial para uma relação mais sólida e de longo prazo", conclui o Banco Mundial.
FONTE:BBC Brasil / João Fellet
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