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domingo, 10 de novembro de 2013

Levantes libertários: do ludismo aos Black Blocs







Se olharmos a História percebemos que levantes populares são uma constante no passado: os hebreus se rebelaram e fugiram dos egípcios, os escravos romanos sob comando de Espártaco quase destruíram Roma, entre tantos outros exemplos. Em nosso passado recente percebe-se que desde o século XVII começam a haver levantes libertários no mundo ocidental. Originalmente se rebelavam contra a opressão do clero e da nobreza nos campos e nas cidades. Intelectuais iluministas tentavam compreender o fenômeno e as explicações eram das mais variadas.

Para alguns membros do pensamento iluminado – que surgia dentro da burguesia como uma forma de resistência ao mercantilismo e às “justificativas” divinas para os privilégios feudais – tais levantes eram uma forma de expressão popular e, dessa forma, justificada pela opressão. Para outros iluministas, mesmo avessos à nobreza e ao clero a destruição de campos, igrejas e símbolos dessas duas castas era um grande barbarismo.

Do século XVII em diante percebemos que cada geração descobriu formas próprias de resistência, baseados nas condições que se apresentavam para a luta social. Algumas vezes tais manifestações mostravam o desconhecimento de quem era o verdadeiro inimigo.

O movimento ludista – atribuído a um indivíduo que pode não ter existido chamado Ned Ludd – é um exemplo. Na transição do século XVIII para o XIX o sistema capitalista dava seus primeiros passos. Não se sabia muito bem o que era – tanto que sequer era chamado dessa forma. Os trabalhadores seguidamente perdiam seus empregos devido ao desenvolvimento de novas tecnologias. Cada máquina podia substituir cem funcionários.

Como os ludistas agiram? Simples, quebrando as máquinas. Eles não conseguiam ver que a máquina não era o inimigo e sim o dono da máquina que explorava sua força de trabalho. Como sempre, os donos do poder reagiram e uma violenta repressão caiu sobre esses operários: qualquer um que se rebelasse seria violentamente perseguido e quem quebrasse uma máquina teria a pena de morte decretada. Ainda, para proteger os interesses econômicos os soldados dos exércitos nacionais passaram a defender as fábricas.

No desenvolvimento dos levantes populares ao longo do século XIX, uma das formas de resistência era impedindo que as forças armadas – que defendiam o capital e não os cidadãos (alguma mudança?) – tivessem livre trânsito. Como as ruas eram estreitas, a população bloqueava com entulhos fazendo barricadas nas ruas. Desse jeito, os soldados tinham seu poder de mobilidade e formação de combate limitados. O povo podia, mesmo com paus, pedras e outras armas artesanais enfrentar as forças regulares, pois atacavam nas barricadas, nas sacadas e topo dos prédios.

Isso ocorreu na Revolução Francesa, nas jornadas de 1830 e 1848 e deixou de acontecer pelo fato dos estados perceberem e reformularem as cidades para impedir esse tipo de organização. Essa é uma das causas pelas quais a Comuna de Paris ter falhado: Napoleão III depois dos acontecimentos de 1848 reorganizou as ruas de Paris para que fossem largas e dificultar a construção das barricadas que necessitavam de muito mais materiais e eram rapidamente destruídas pelos soldados que tinham condições de fazer suas formações ofensivas sem riscos de ataques pelos flancos (prédios).

Ainda no século XIX, mas principalmente no século XX, os trabalhadores se organizavam em grandes sindicatos e partidos de esquerda (algumas vezes até supranacionais) e com movimentos solidaristas os trabalhadores faziam amplas greves gerais que paralizavam as nações e ameaçavam os donos do capital.
A estruturação do Estado de Bem Estar Social foi uma espécie de vacina “natural” utilizada pelos países e a ultima grande greve parece ter acontecido no glorioso Maio de 1968.

Ao mesmo tempo, no século XX houve movimentos pacifistas que colocavam em xeque o poder militarista das nações ao não enfrentar os opressores com armas e sim com a simples desobediência civil – não trabalhavam ou não obedeciam às ordens de quem os subjugava. A Índia sob o comando de Gandhi é o maior exemplo de resistência pacífica, conseguindo a libertação do jugo britânico. Outro grande exemplo é a conquista dos direitos civis pelos afro-descendentes nos Estados Unidos sob o comando de Martin Luther King Jr.

Em outros momentos simplesmente eclodia rebeliões das mais variadas formas e espontâneas quando a tirania era grande e colocava em risco a própria sobrevivência das populações ou quando a exploração era demasiada. As Intifadas palestinas contra os opressores israelenses tanto no século XX como no XXI são exemplos.

No final do século XX e início do século XXI surgiu uma nova forma em que as manifestações passaram a ser realizadas. Essas são conhecidas vulgarmente como Black Blocs e conjugam em si algumas características do nosso tempo.

Em um primeiro plano percebemos que os jovens que aderem aos Black Blocs sempre utilizam os rostos tapados por capuzes, lenços ou camisetas. Sim, isso é algo lógico se pensarmos que estamos vivendo em um mundo onde câmeras estão em todos os lugares e é muito fácil a identificação dos cidadãos. Tendo em vista que o Estado tem uma premissa a autodefesa, certamente tentará identificar e enquadrar esses cidadãos nos rigores da lei.

Muitos críticos – inclusive parte daqueles que lutaram contra os militares durante o período ditatorial - dizem que quando se manifestavam estavam de peito aberto e rosto desnudo. E comparam isso como se essa nova geração fosse um bando de covardes.

Estranho, pois todos os guerrilheiros abandonavam sua vida civil e iam para a clandestinidade. Trocavam de nome, corte ou cor de cabelo, cidade, estado. Eram mecanismos para ocultar a própria identidade. Mesmo assim, o regime postava cartazes com os rostos dos cidadãos e muitos caíram presos por isso. Isso são formas diversas de ocultar a própria face e se livrar da repressão.

Outra característica é a violência descabida não apenas contra os símbolos do capitalismo como o patrimônio público e privado. Isso é um fato interessantíssimo se formos analisar sociologicamente. No passado - e vamos pegar no século XX - os trabalhadores brasileiros é que detinham uma grande organização. Havia um princípio teórico e prático de ação: a mobilização através de greves. Nos períodos ditatoriais (Estado Novo e Regime Militar) muitas vezes a resposta foi de grupos armados enfrentando o sistema, mesmo assim havia um inimigo a ser combatido e com formas e objetivos claros de intervenção.

Nos dias de hoje percebemos uma grande desestruturação de valores políticos, culturais e sociais. Isso é um reflexo da pós-modernidade que descentralizou completamente as lutas político-sociais. Diante de um quadro de levante popular sem uma organização central e com objetivos claros tende-se à violência descabida.

Há uma espontânea ação de destruição. Os objetivos são menos claros que dos antigos ludistas, que viam e centralizavam nas máquinas a sua rebeldia. Agora os Black Blocs são desprovidos de uma coordenação geral e se juntam espontaneamente através das redes sociais. Existem dos mais variados interesses políticos. Ou seja, ideologicamente é pulverizado. Não há um comando da esquerda, do centro ou da direita.

É por isso que os Black Blocs assustam tanto, pois é um movimento espontâneo que surge exatamente em um momento de completo afastamento da classe política do resto da Nação. Não segue os padrões conhecidos, não possui uma agenda definida e pode eclodir em qualquer momento sob qualquer bandeira, desde que consiga sensibilizar simpatizantes pelas redes sociais (que são incontroláveis). O Estado ainda não sabe como enfrentar essa “ameaça”.

Ou seja, os Black Blocs são a síntese da pós-modernidade dos dias atuais: inexistência de uma única causa, ora individualismo ora a irracionalidade de uma multidão, a busca pelo anonimato, um ódio contra a máquina do sistema, mas não se sabe bem o que é o sistema, pois as novas gerações estão cada vez menos politizadas.

Isso leva a grandes equívocos para a compreensão dentre nossos intelectuais, em sua grande maioria presos aos valores e conhecimentos do século XX. A direita vai enquadrá-los como criminosos (sim atacam os símbolos do capital e o patrimônio) e arruaceiros. A esquerda sem ter o controle sobre o movimento vai enquadrá-la como vândalos e analisá-los com o desdém de uma multidão despolitizada. E disso resulta que a direita os vêem como “anarquistas” e a esquerda como se fossem os “freikorps” que surgiram na Alemanha pré-nazista. Um verdadeiro erro de ambas as partes.

Como pode ser visto, os Black Blocs não são um simples bando de arruaceiros. Eles refletem a forma espontânea que ressurgiu a luta social nesse novo mundo pós-moderno do século XXI: o capitalismo triunfou de tal forma que as lutas sociais foram pulverizadas e ninguém mais vislumbra a exploração capitalista no âmago de todos os problemas sociais da humanidade.

Enquanto isso, dezoito milhões de pessoas morrem de fome todos os anos (e a cada seis anos mais de cem milhões). O capital gera mais exclusões e sofrimento às nações e comunidades como nunca antes visto na nossa História.

Se analisarmos friamente, os Black Blocs são apenas uma entre tantas contradições do sistema capitalista. Apesar de tudo, mesmo que possamos julgar suas ações de forma errônea, são os Black Blocs que estão nas ruas lutando por um país e um mundo melhor.

Para deter a ação dos Black Blocs não adiantará a repressão, pois para cada mascarado que seja desmascarado e preso, outros dez poderão ir para as ruas se forem sensibilizados pelas redes sociais. A melhor forma para lidar com eles é melhorando a sociedade ou criando (ou recriando) formas mais eficientes e politizadas de luta popular.



FONTE: NADA ALÉM DE VERDADES

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Saint-Simon, Fourier e Owen. A falta de utopias no século XXI. Um debate com Aloísio Teixeira


Pensadores como os franceses Saint-Simon (1760-1825), Charles Fourier (1772-1837) e o inglês Robert Owen (1771-1858) são considerados homens com idéias avançadas para o seu tempo. Mais do que refletir, diz o Prof. Dr. Aloísio Teixeira, reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), “os três tinham uma visão critica e denunciavam de maneira rigorosa a sociedade”.
Ao contrário do que muitos imaginam, os pensadores utópicos, como são conhecidos, não se proclamavam socialistas e não queriam a igualdade. Encaravam a desigualdade como algo natural da vida humana. Além disso, desconfiavam dos políticos e dos militares, mas acreditavam na virtude das elites constituídas pelo saber. Descrente com a política, Saint-Simon escreveu, em A Parábola, que, caso a Família Real Francesa morresse, a humanidade não perderia nada. No entanto, se 3000 artistas, escritores, bancários, enfim, toda a classe trabalhadora morresse, seria uma desgraça para o país. O Prof. Dr. Aloísio Teixeira, explica que “a visão de Saint-Simon era que a sociedade devia ser conduzida por artistas, intelectuais, sábios”.
Fourier, na opinião do professor Aloísio Teixeira, foi o mais estranho e o mais instigante desses autores. E o julgamento não é à toa. Fourier, se não foi o primeiro, provavelmente foi um dos primeiros pensadores a questionar e estudar a atividade da mulher na sociedade. Em suas teorias, defendia a emancipação da mulher e até mesmo a traição feminina dentro do casamento, segundo ele, esse tipo de ação incentivava o homem a pensar na relação. Uma cena cômica para os dias de hoje? Talvez nem tanto. Ele conseguiu antecipar a situação feminina que só 100 anos depois se realiza com a liberdade do voto para as mulheres.
Owen marcou seus estudos pelas preocupações com o modo de vida da sociedade. Ele foi responsável pela melhoria das casas, pela criação de armazéns com preços moderados. Criou escolas ativas, reduziu a jornada de trabalho dos funcionários e pregou a formação de cidades-coorporativas ou autônomas de trabalhadores, como solução para a questão social. A repercussão de sua obra ultrapassou fronteiras. Dos três, foi sem dúvida o que mais chamou atenção pelas suas idéias, tornando-se um dos mais importantes pensadores utópicos.
No III Ciclo de Estudos Repensando os Clássicos da Economia, promovida pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, o Prof. Dr. Aloísio Teixeira apresentou um painel dos socialistas anteriores a Karl Marx, no qual propôs uma reflexão sobre as principais idéias e pensamentos de Saint-SimonCharles Fourier e Robert Owen. Segundo o professor, esses autores se distinguem dos demais pela proposta de mudança que apresentam em suas obras. Eles acreditavam que a mudança da sociedade, e, principalmente, a transformação do homem, só seria possível através do conhecimento cientifico. “Eles reverenciavam o conhecimento cientifico e tinham uma fé inabalável por ele”. Mesmo apresentando propostas diferentes para a criação de uma sociedade ideal, o trio utópico concordava com a criação de uma reforma social, na qual o homem precisava ser reformado em primeiro lugar.
Embora a obra dos três autores já esteja um tanto quanto atrasada para os dias de hoje, o professor diz que a leitura dos textos ainda vale a pena. Ele destaca que esses livros podem ser utilizados como um instrumento de pesquisa, principalmente pelos jovens. E dispara: “pelo menos para saber onde essa história começou. Todos os autores do século XIX  até hoje se basearam nesses autores, por mais fantasiosos que eles foram”.
A exposição do Prof. Dr. Aloísio Teixeira durou aproximadamente 1h30min. Depois, iniciou-se o debate. Questionado sobre a existência de utopias no Brasil atual, ele afirmou que a ela sempre existiu, mas em seguida rebateu: “vivemos no Brasil hoje um momento de poucas utopias. Vivemos grandes utopias no fim da ditadura. Achávamos que íamos caminhar para um mundo melhor. Mas houve uma queda muito grande nas expectativas e as pessoas perderam um pouco a utopia”.  Em seguida concluiu: “vale a pena dedicar um pouco de tempo porque reconstruir a utopia é preciso no mundo em que vivemos”.
FONTE: .ihu unisinos